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Dias Felizes

Dias Felizes

A Invenção do Sentimento

- O que falta aos Homens?

- A capacidade de lidar com a verdade. A capacidade de se entregarem de verdade e da sua essência ao que quer que seja.

- E as verdades obscuras? As essências ao negro? São também uma verdade, uma triste verdade?

- A verdade é uma escolha tal como a mentira. Tal como o amor. Tal como a arte de dar por dar.

Amor Incondicional

 Muito rapidamente, mas dito com o vagar de quem sobe. Amor, amor incondicional, daquele que tudo perdoa, daquele que aceita a qualidade do outro e não pede nada, é coisa rara, muito rara. Conheço amores assim, e ainda há pouco experimentei um deles - e tantas outras vezes - naquele olhar cúmplice, nos piscares de olhos por cima da multidão de crianças em sobressalto, na cabeça aconchegada no meu corpo que é também o meu corpo aconchegado na sua cabeça, na energia limpa (e linda) que passa e é intraduzível, no sorriso que gosto de achar meu, mas comovendo-me com as feições de quem me a deu (deu-la-deu), e quando passa essa energia, a mais pura e imediata, tudo que vem da bílis azeda, todas as raivas incontidas, todo o desconforto da vida comezinha se eclipsam. Voltamos a um lugar onde a juventude é potável. Somos cães existenciais. Somos todos carentes de afagos. E mesmo o calhau mais empedernido, o ser mais vesgo, a amiba que achamos incapaz de um gesto simples como pode ser um simples abraço que se demora, é apenas isso que pede no seu fundo entorpecido, pede-o de forma mais ou menos desastrada, para satisfazer a sua necessidade de consolo, mais ou menos egoísta.

Elogio da Nudez

À nudez (forma original da vida) se colam epítetos como narcisista, exibicionista ou egotista quando pode não ser esta mais do que pureza extrema e desinibida liberta de todos os canónicos espartilhos. O desvendar da parra pode mostrar muita uva e levar às mais variadas emoções. Por exemplo, diante da performance de uma actriz assaz bela e expedita nos salões de um museu parisiense - e de velocino púbico atávico - dei por mim a ir a velocidade estonteante da arte de Courbet às páginas centrais de uma revista Lui de meados dos anos 80 onde a protagonista, uma belíssima morena de estatura mediana, de amplo equilibrismo nos calcanhares que a fazia uma deusa altiva, posava num jardim com piscina de arte renascentista entre faunos de pedra e gárgulas ebúrneas.

 

A memória daquela vulva rosada, daquela tez morena, daquele corpo possante e, porém, delicado, para sempre dominaram as minhas mais recônditas fantasias. Ao ver uma artista sentar-se no chão poeirento do Louvre pensei, por um lado, que merecia uma chaise-longue escarlate à sua disposição para evitar bactérias em tão delicadas curvas. Por outro, senti intensamente como a vida nos pode devolver à paz e ao êxtase através dos mais acesos desejos. A nudez da artista era agora também a memória da minha nudez púbere de jovenzinho na puberdade aflita agarrado ao meu sexo que por milagre nasceu profano. Todo um caudal de morenas de Angola à contra-costa me atravessou então os olhos lânguidos diante de um acto porventura político como o podia ser o da actriz de pernas magníficas e vulva excelentíssima. Tomado de ardores recolhi aqui, à escrita, lado a lado com um livro de Tarot onde ainda há instantes lera o possível significado da carta Os Enamorados, isto é, aqueles que perfilham o amor como um tudo à vida, onde a nudez que relembra o princípio dos tempos nada mais é do que aquele estado de quem nada tem a esconder, de valores mais altos expressos com verdade e pureza. As iniciais TS não passam de um acaso feliz.

Abaixo o governo Abaixo os governos

“Quem quer que seja que ponha as mãos sobre mim, para me governar, é um usurpador, um tirano. Eu o declaro meu inimigo”

Pierre-Joseph Proudhon

 

O governo em disfunções não é o culpado de todos os males da Parvónia, mas as suas políticas prepotentes, cobardes, neo-pidescas e disruptivas poderão explicar parte da insânia a que votaram o torrão como pouco se viu na História da nação valente e imoral. O governo em disfunções e o seu prócere modelo da Maconde Silva, também conhecido por Alzheimer Silva ou espantalho Cavaco, serão enterrados mais cedo ou mais tarde, sem que porém o rasto de trampa, sangue e separatismo se possa limpar a tempo de salvar um caudal de almas atiradas para a vala comum do pranto e da penúria, saqueada por uma horda de confiscadores encartados, avençados e premiados pelos seus abates. À boleia do separatismo instalou-se uma atmosfera pestilenta, quase sempre pusilânime e tendencialmente fratricida. Está, contudo, ao alcance de todos, um a um, ou todos por um à la d' Artagnan, dizer, alto-e-bom-som, com termos, educação, vigor, veemência incontida, por poema, carta, post, livro ou haiku vão levar no totiço, seja com palavrões do real vernáculo, seja com recurso à jocosa sátira ou a outros métodos assertivos. Há formas de denúncia, protesto e reinvindicação para que o sarro não prevaleça. E não é preciso detonar bombas.

Em Busca de um Mundo Melhor (IV)

As sociedades estão orientadas (desorientadas?) para a competição, a rivalidade, regidas pelo atractivo das cenouras, donde, quem as habita, e nelas se reveja, e se deixar levar por esta teoria do bastão e da cenoura, arruma-se voluntariamente na categoria asinina. Um burro, porém, gera simpatia na sua teimosia obstinada e orelhuda. Um estúpido, um idiota ou um imbecil, por mais afáveis ao olhar, gerarão outra categoria de sentimentos, como me gera a senhora Merkel (Mircolina). Olhem bem, se tiverdes tempo e o achares bem empregue, para quem nos tem governado (desgovernado?) nestes anos sombrios. Detei-vos alguns instantes nas caras e carantonhas dos senhores que mandam neste mundo. Estudai-lhes os olhares, os sorrisos, os esgares, a dentição, as queixadas, os penteados, as trombas ao detalhe, para quando chegar a hora do voto terdes a certeza de quem estais a entregar o voto que é sempre um voto de confiança. Por um rosto se atravessa muito do que habita o seu portador, ainda que quem veja caras não veja corações. A importância maior, porém, não está nos andrajos, nos salamaleques ou no nome que se enverga. A importância é um encontro solitário com o que não tem importância nenhuma.

Campo dos Mártires da Pátria

Celebram-se hoje 70 anos do fim da II Guerra Mundial. Estou de visita ao Japão, o país mártir dos últimos dias da guerra mais mortífera que a Terra terá conhecido. Todo o país se veste de branco em memória de Hiroshima e Nagasaki. Entoam-se mantras e cânticos como se na música estivesse a melhor hipótese de paz para o mundo. É também dia de velar os espíritos dos antepassados. O rancor e o ressentimento deram lugar há muito a um discurso combativo por um ideal de paz e prosperidade. Um discurso colectivo, a fazer fé nas palavras das várias pessoas que me cruzam o caminho. Num táxi, o condutor pergunta:

- Porque vieram ao Japão?

- Curiosidade de confirmar umas quantas coisas, porque sorriem tanto, entre elas.

- Não sei explicar-lhe, mas sai-nos com naturalidade.

- As pessoas aqui são muito organizadas. Parecem formigas incansáveis.

- Formigas… sim. Acho que aprendemos com os erros do nosso passado que para ter prosperidade é preciso trabalhar. Não sei explicar-lhe…

- Têm coisas muito bonitas e pouco comuns de serem vistas em todo o lado. Os jardins estão sempre arranjados, as pessoas são muito educadas e delicadas, seja mulher ou homem. Sabe explicar (sorrimos)?

- É para não termos mais chatices… (ri-se)

- Zen, Budismo, Samurais, essas coisas da vossa cultura dizem-lhe alguma coisa?

- São bonitas… e temos orgulho nelas e que gostem delas. - Como é que lidam com a memória da Guerra?

- Cresci a ouvir que a nossa vida é o que fazemos com ela. Cada um tem o seu Deus e todos subimos a mesma montanha, cada um no seu passo. Tenho estudado muito a Bíblia porque me interessa saber o que há nela do budismo. Sou filho de budistas, mas tenho o meu Deus. E ando muito devagar… (ri-se)

Saímos do carro a pensar como as coisas mais belas são as mais simples e efectivas.

A arte de viajar

Quem viaja e depois se dá o caso de trabalhar para contar bifurca sempre nas questões: Contar ou não contar e que partes ocultar para mais tarde desfrutar com quem realmente apetece-merece? Ou seja, se é este um destino maravilha, por estar a salvo das loucuras gananciosas, não haverá o risco de deixar de ser se a publicidade e os néons forem muito luminosos? Uma vez de barriga-alma cheia não estará na hora de deixar a vida de servente dos maços de notas e aderir para a frente e em força à misantropia boa vivente de pé descalço e instalar-se, por exemplo, numa praia goesa a norte do Estado ainda por baptizar do tamanho de um torrão da Caparica? Manter o estoicismo de bom vivente bondoso e escrever (com bondade) sobre as virtudes de viajar sem estragar os locais por onde se passa?

O negócio dos livros

Ouve-se dizer das dificuldades - impossibilidades - de um autor de livros lusitano, vulgo um escritor, viver com desafogo do seu ofício, como poderá viver um político. Digamos, ser capaz de produzir um livro competente, razoável ou talvez mesmo uma obra-prima a cada dois anos, digamos assim, porque Escrever não é encher chouriços de palavra picada. Há autores prolíficos que, sem grandes burguesismos, poderão viver das suas obras. A ganhar dinheiro que se veja deverá haver por aí uma mão cheia de prosadores, nem todos é certo, escritores de caixa alta. Portugal, comparado com o Brasil, pode gabar-se de editar a bom ritmo e os autores poderão queixar-se menos do que um ganense ou mesmo um angolano cingido aos leitores da sua pátria. Choca a muita gente que um candidato a autor pague para editar como faz, por exemplo, a editora Chiado. Como choca que a ETC, do malogrado Vítor Silva Tavares, não pague direitos de autor e ainda assim muitos aspirantes a escritores de elite façam fila para lá editar as suas obras. Como editar ou como não editar eis a questão? Ou como editar e repartir o lucro justamente. Um editor da praça decidiu editar segundo um princípio não inédito (mas não arcaico), que já Miguel Torga praticou, e reparte irmamente os lucros das suas edições, pedindo apenas ao autor que se empenhe na comercialização e divulgação da sua obra, pois o burgo não tem mecenas que paguem impressões, ou se tem são vontades anónimas de gente simpática. Para garantir uma edição sem prejuízos é necessário que se garanta um x de exemplares. Para viver da escrita num T1 da periferia (sem filhos e mordomias) um autor terá que vender 5000 mil livros por ano. Embora este seja um pequeno mundo de competição, onde as vaidades proliferam e há os que nunca saem do palco para descer à terra, acredito que há espaço para todos os que amem o seu ofício e o pratiquem com rigor, honestidade e devoção.

Em Busca de um Mundo Melhor (III)

Decorre um fenómeno “social” em terras de Portugal - e outras tantas decerto - a que vou chamar de abjecto, palavra onde se junta o prefixo ab e o substantivo objecto. Fulano ou fulana A, sabe que sicrano ou beltrana B, se depara com um problema, daqueles cuja solução, ainda que um dia resolvida, dará azo a uma perda, um desgosto, uma desilusão, um dissabor e uma confrontação (mais uma), com a dura realidade da vida. A vida é tanto do que se passa no mundo interior, onde podemos refrescar as ideias das formas mais simples e inesperadas, por exemplo, um mazagran bem servido, como do que se passa do lado de fora, onde os humanos se chocam, abalroam, agridem e matam por dá cá aquela palha. O fenómeno, com nada de novo na História da sanha humana, dita que uns, mais dados à perfídia e à insinuação costeira (a das costas), se regozijem diante da notícia de que um seu inimigo (declarado ou não), sofra e padeça de severas dores, como pode ser a dor do estupro, do abuso de poder cabotino (da suma autoridade fiscal, por exemplo), ou do mero despeito pelo que habita de bom em cada alma perdida. Um simples pedido de desculpas, genuíno, sentido, pode resolver sadiamente muita coisa podre de espírito. Ou uma devolução do dinheiro legalmente roubado (pela suma autoridade fiscal, por exemplo), que tanta falta fez e faz e fará para o proveito dos meus filhos que seja, ainda longe da idade para se sustentarem e vítimas maiores da canalha. Olho ao meu espelho onde tantas vezes se reflecte a raiva do injustiçado e penso na frase “irei cuspir-vos no túmulo”, ou outra que diz “agradeço aos meus inimigos que muito me ajudaram na carreira”. São frases odientas de que não me orgulho, e das quais fujo como do Diabo da cruz, que é a cruz de todos, mesmo dos que se julgam imunes às tomadas de consciência. Porém, diante de quem a quem entregámos a máxima confiança e que nos trai, que nos achincalha, ou tem em si a possibilidade de o fazer e com ela se regozija, que sentimentos mais humanos se despertarão, do que aqueles que vão ditos em cima, e levaram Vian e Cela a dizê-lo, alto-e-bom-som, aos que lhes rezavam pela pele? Soa de belo efeito dizermos ao mundo e ao espelho partido que somos bons, mas muito bons são os que nada disseram e apenas se limitaram a fazer pela vida, a vida onde caiba a felicidade e não a ruína dos outros, de quem comeram na mesa e de cujos favores gozaram, gozando agora o prato com a cara de cu à paisana que deus lhes deu.

Portugal: palavra de um nativo

Nada vai mudar depois deste post de tom trágico, cuja tragédia é quase nenhuma, se comparada com o que se passa nas hordas sírias, ou em boa parte do mundo dito civilizado. Como nada muda para além do que uma vontade própria e constante queira mudar num defeito de carácter que seja, e a trabalheira que dá. Post(o) isto haverá quem se irrite, implique, desdenhe, amesquinhe, celebre e até exalte com gáudio as minhas dores. Ou, por o(post)o, aplauda, comente e se reveja, com franca e justa sinceridade. Ou ainda quem não se aqueça nem arrefeça. Vamos por partes: a vontade disto escrever partiu da leitura de uma crónica recente do historiador Pacheco Pereira sobre as dores de Portugal. Assim como há os que choram e os que vendem lenços, há também os que sofrem de dores infligidas e os que se regozijam com as dores dos outros, agitando o indicador da razão, do eu bem te avisei, ao toma e aprende e embrulha, que no extremo os levará a ir cuspir no túmulo do odiado. E depois há os que juntam o pensamento ao sentimento, com sabedoria e discernimento, como faz o Pacheco na medida grande e da plaina séria. Sucintamente: o meu caso com Portugal, relatado num livro recente, é o de um nativo que tinha uma vidinha porreira, de quem ama o seu ofício triplo de escritor, viajante e omnívoro de livros, com as suas questões comezinhas de tribalismo caseiro, sem crimes de sangue. De repente, não mais do que de repente, vem uma entidade de plenipoderes e diz à sua cara-metade num calabouço sombrio: “V. Exa não pagou tudo o que devia ter pago neste ano e neste e neste e mais neste e neste”, embora, a cara metade tenha recorrido a pessoa idónea, e pago o que esse alguém conhecedor da matéria fiscal lhe tenha dito ser o devido. A aritmética a provar fica por conta deste lado. Do outro lado, da entidade plenipoderosa, ficam os métodos indiciários (e torcionários), próprios de quem faz um trabalho preguiçoso, danoso, cabotino, e em nada distinto de tempos atávicos em que se atiravam homens e mulheres para forcas, fogueiras e masmorras onde apodreciam até ao derradeiro suspiro. Por conta desta actuação, que equivale a entregar-se a alguém um voto de confiança ou abrir a porta de casa e ser-se saqueado, passa uma família de vidinha de paga casa, carrito e instrução e alimento de petizes, a viver em prol do pagamento de uma longa e penosa dívida, que se provou como foi possível provar, de flagrante e injusta e grave monta, sem que nada disso tenha sido considerado. Olhando a conta final é como ter um empregado chamado Estado/Fisco por conta, a ganhar um salário elevado e de emprego garantido durante 11 anos. Isso ou entregar tudo, de mão beijada, o que se conquistou a trabalhar, fruto de trabalho honesto e honrado. Desde há três anos, cada dia que passa passou a ser encarado como uma espécie de cancro induzido que se combate com quimioterapias narrativas. Se o digo aqui, publicamente, em lençóis de texto, ao que me é dado viver, é por acreditar com ingenuidade sentimental que há por aí réstias de humanidade, de humanismo, e de gente disposta a combater as injustiças do(s) sistema(s), tanto como é merecedor de luta e debate todo e qualquer assunto onde os factos sejam inquestionáveis para se dizer com palavras exactas se estamos diante de um caso de abuso, traição ou de pura canalhice. A solução ou soluções para acabar com os soluços? Para uns será pela via democrática, esperançosos de que os vindouros venham e resolvam e limpem as cagadas quando essa limpeza começa na própria casa e se a eles não se juntarem em jornadas de luta e asseios, tudo ficará na mesma. Para outros será através do humor, que tem gradações como qualquer arte, desde o sarcasmo ao cáustico, do satírico à caricatura, ao irónico e subtil ou escacha-pessegueiro. Para outros ainda, resolvem-se as partes desavindas à cabeçada, ao soco, ao tiro, ao obus e à limpeza de tudo e todo o que seja diferente, como as vespas, que exterminam sem contemplações piedosas. Para outros, onde mais me revejo, procura-se a solução (que depois do caldo entornado será para sempre precária, mesmo nas almas budistas) através de palavras escolhidas a dedo para caracterizar os factos e se preciso for, escarafunchar no próprio ser e nas suas falhas. Posto isto: vou voltar à labuta no romance e preparar as aulas da semana, dando graças pela minha condição de saudável exilado, no lugar de refugiado ou preso domiciliário.

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