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Dias Felizes

Dias Felizes

À Grande e à Francesa

Quando nos deparamos com o belo, ainda que a ideia de belo levante natural discussão, por instantes as dores dos desatinos, sejam eles quais forem, sucumbem. Belo, para mim, foi neste acaso das minhas viagens, descobrir a obra de Henri d' Orléans, duc d'Aumale na província de Paris, aonde fui buscar mais elementos para uma história onde o belo é a palavra-de-ordem (a mot juste) na forma de filantropia e bondade. Na terra do Chantilly, as natas do céu, herdou o Duque o seu castelo e recheou-o de arte, a melhor do seu tempo. Livre das vaidades, pensou-o num território dos outros, dos vindouros. A França é pátria orgulhosa e de peitos opulentos. Por exemplo, vende queijos e vinhos (por vezes, sofríveis) como quem vende feitos da sua História onde estão momentos admiráveis como a Comuna de Paris ou a Revolução. O Duque encheu a casa de arte, mas foi na sua honorável biblioteca que me fez sentir um afortunado. Fui ali movido pelos cavalos, o hipódromo e as afinidades com Ascot, e dei por mim cercado por um leitor e coleccionador omnívoro da literatura mais esmerada. As estantes não aspiraram à quilometragem do Trinity College, nem foram erguidas para servir de decoração ou levar à cobiça do Vaticano. A biblioteca do Duque é acima de tudo um lugar para se repousar o corpo inteiro, para então deixar o castelo e partir rumo à leitura. Procurar logo nessa tarde um par que seja de livros de alfarrábio, num bouquiniste do Sena, procurar um cadeirão de leitura de veludo coçado num antiquário e inteirar o espírito de um Rabelais ou Montaigne em honra do magnânimo Duque.

Agustina

Nos idos tempos de repórter de “O Diabo”, dirigido por Vera Lagoa, fui de piquete à Rua do Golgota, ao Porto, entrevistar a “Senhora Agustina”. Estávamos no final dos anos 90 do século XX e Portugal vivia as ilusões do cavaquismo, de opulência pacóvia e populismo. Havia sempre perguntas rebeldes e entrevistados notáveis. Era a regra do jogo. Lera apenas, da biblioteca herdada do meu tio António Galvão Lucas, seu correspondente próximo, “A Sibila” e o tributo apaixonado a Duhrer. Iria falar-se mais da vida e menos da obra, embora nela a fronteira se revelasse ténue. As feições de “raposa” ou raposinha, dada a sua pequena estatura, davam-lhe a ternura de uma avó, mas nenhuma frase lhe saía cândida e amável, sem um apontamento de estilo quase sempre irónico. Levou-me para a sala onde lia e por vezes escrevia e serviu-me chá e bolachas antes de premir o botão do gravador. O Inverno estava agreste e acendeu o calorífero da mesa de camilha. De vez em quando os nossos pés tocavam-se e sentia uma ternura como ligava apenas à minha avó Vessadas.

Dei por mim a pensar como seria magnífico ter uma avó Agustina, com quem pudesse falar de Embaixadas a Calígula ou de Contemplações Carinhosas de angústias e ter sempre um sorriso algures no caminho. Falámos de Yourcenar, de Mário Cláudio, do Douro, do Porto e da sua erótica soturnidade, e de futebol e política, e de literatura policial, Simenon. Quase sempre acabávamos a falar de famílias. Mostrou curiosidade sincera pelas minhas novelas do Minho e assim chegámos a Camilo, o seu autor mais amado, que dizia no seu tempo que os escritores portugueses não se ajeitavam no romance, nem ele. Nem ela, confessou, com a sua franqueza implacável. O romance exige um conhecimento dos meandros da vida que nem sempre se tem, e quem julga tê-lo, é porque não o tem. Falei-lhe de um aforismo da minha avó Francisca, que dizia haver um tempo para a formação e outro para a deformação. Ela sorriu, e disse, “cuide dela. Ela sabe”. Se a sabedoria tinha corpo estava diante de mim e tinha os pés aquecidos. A fala saía-lhe sempre avisada, ainda que se falasse de trivialidades. No fim da conversa fomos ao jardim colher flores. A memória trai-me, e não sei de botânica para saber se trouxe um lírio ou uma margarida. Mas se estiver a ouvir-me hoje, daqui lhe devolvo um amor, perfeito na justa medida de quem devolve.

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