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Dias Felizes

Dias Felizes

Noite Branca

Uma pilha de livros à cabeceira, aos pés da cama, no chão, em cima do travesseiro, diz o quê deste vosso amigo? Que sou omnívoro de livros? Que os livros são a minha rede do trapézio? Que sem as memórias de Giacomo (na tradução de Tamen) por perto, a vida é muito menos suportável? Ou os textos de Proudhon, Stirner, Bakunin e Kropotkin para me reavivarem a memória do lugar do Homem no universo, a par das poesias de Tagore? A Selva, do Ferreira de Castro, também aqui dorme, para que as regras do ofício não se descurem. O Sandokan, ali à esquina do quarto junto ao Corsário do Salgari e do Fantasma cujo anel tanto amei em puto que se tornou o meu cachucho de anelar na meia idade. A morte cheira a esturro por tantos e todos os lados, mas tenho aqui O Livro dos Mortos dos tibetanos para me apaziguar, se a ideia de morte (antes do tempo, e é sempre uma pena) me afanica o dia. Noites horrendas as dos que não têm o consolo dos livros ou os que não podem dizer como disse Blaise Cendrars, troco todas as minhas páginas felizes, de mão feliz, por uma noite de amor contigo. Um beijo dos nossos, onde quer que estejas.

Escrever

Há anos, quando cismei em ser escritor, num curso da maestrina Luísa Costa Gomes, era perguntado aos formandos “que tipo de escritor quer ser?”. Andava entranhado de Miller e Celine e respondi com apartes de escritor modernista “do real plausível”. Estes, a par de Conrad, pareciam-me os mais autênticos e capazes de traduzir o coração das trevas e a esperança da alegria na triste condição dos bípedes. Era como se os livros queimassem e dessem consolo às pupilas gustativas. Gosto de dizer que sou escritor, apenas porque escrevo sobre o que tiver que ser, quando talvez me ajeitasse melhor, e fosse ainda mais feliz, a dar toques numa chincha ou a podar sebes como o Eduardo mãos de tesoura. Escrever ainda é para mim uma festa (da língua e dos sentidos) por isso insisto neste prazer desmedido. E sou grato a um punhado de amigos que por aqui pululam, como a Patrícia Reis, o Hugo Gonçalves, o João Tordo, a Cristina Carvalho, a Ana Margarida de Carvalho e o seu talentosíssimo pai, o Pedro Teixeira Neves, a Ana Borges e o mais recente Casimiro, que esteja eu onde estiver, fazem deste lugar um espaço arejado e digno de visita.

Marília, A Victoriana

Um livro é muito mais do que nele está escrito. Um livro é uma alma vestida de muitos corpos. Um livro é uma materialização de um autor/animal volátil. Um livro é um strip-tease ou uma cebola por descascar. Um livro que não comove, um livro que não agita, um livro que não questiona, não queima, não é um livro. Ou seja, tudo o que este livro não é. Este é um livro de uma mulher que é plural, um bouquet de mulheres das que correm com lobos. Nesta aparência frágil está uma guerreira, uma amazona, uma Pasionária que não espadeira contra a podridão do mundo que vê, mas, prefere derramar um olhar compassivo sobre tudo o que a faz sofrer e que nunca a poderá derrotar. Nas vestes airosas e elegantes há uma nudez pronta para todas as guerras, as do espírito onde o punhal, a arma de fogo dão lugar a sabres de luz. E, no entanto, nada aqui, e nada nela, posso arriscar, é de matriz belicosa. Canora e ave sim, posso dizer que é, depois de a ouvir cantar há dias, a capella, frente ao Tejo, de aceno ao Cristo-Rei, numa noite de ternura infinita. Um cântico dos cânticos em louvor das sopranos e meias sopranos e cantoras de instrumento débil. A Visão de Deus na Mulher é a mais perfeita, disse-o o sufista Ibn-Arabi, e digo eu, budista de Inverno e nudista de Verão, que vejo na mulher a possibilidade de uma ilha de paz e fecundidade. Aqui está uma mulher madura. Quer a mulher que escreve; Quer a mulher que se passeia pelos bosques da ficção lírica; Quer a mulher que desvenda os seus segredos mais íntimos e dolorosos. Não irei dissecar mais este livro nem acrescentar palavras porque todas estarão a mais. Por isso, se me permitem, leio-a para que a escutem e guardem para sempre a sua fala.

 

(texto de apresentação livro "Vitorianas", de Marília Miranda Lopes)

 

Cicatrizes

Ontem, de pernas ao alto, numa pose iogui, dei por mim a fixar os olhos numa velha cicatriz rente ao joelho esquerdo. Logo então me ocorreu o mapa das cicatrizes e de como uma cicatriz é uma memória imediata do corpo, dos corpos, do que fomos. É como viajar num relâmpago ao instante do rasgão, tiro ou facada, como se viaja, sem que o pensamento consiga extirpar, a todos os instantes decisivos. Por exemplo, o dia 4 de Dezembro, por duas vezes me trouxe episódios memoráveis, quando dois seres carregados de cicatrizes se encontram na esperança de sararem as suas feridas de cães existenciais. A cicatriz do joelho esquerdo é coisa pouca, como são todas as do meu corpo - e dou já três carolos na madeira. Lembro o exacto instante de todas. Essa, resultou de um malho contra uma parede nos prédios amarelos da Av. do Brasil. Estatelei-me com a Tip-Top quando por instantes desviei o olhar para a menina linda que saía do prédio, o meu amor platónico de então. Nunca ela saberá que guardo a sua memória do nada que fomos na cicatriz do joelho. Nunca saberei quem foi quando mulher. O lado esquerdo é o meu lado de todos os massacres e chacinas. Um dia, o Joca, um puto de modos aciganados, resolveu cravar-me um x-acto na palma da mão esquerda, tudo porque se achou encurralado por um ajuste de contas da horda de hunos do bairro de Alvalade. A espichar sangue lá fui ao posto médico, mostrar as entranhas, onde podia ver o tendão branco do pai-de-todos numa papa vermelha e grená. Graças ao descuido do enfermeiro, só levei pontos no dia seguinte, e no lugar de uma pequena cicatriz tenho um lenho de Frankenstein. Parti uma vintena de ossos e guardo uma cicatriz mais funda na memória do choque com a cachola do Godinho, nos alvores da 4ª classe. Parte da cana do nariz ficou na tigela de esmalte do Hospital de Santa Maria, de onde recordo a viagem da anestesia, e de me doparem com uma máscara de aviador. Tenho 17 cicatrizes, de pontos e costuras mais ou menos conseguidos na obra do costureiro, a mais acarinhada de uma circuncisão tardia, que resultou num 3 em 1. Por conta de duas tesouradas inguinais, decidi que era daquela que me convertia à pequena família dos circuncidados. Um dia, à entrada no aeroporto de Israel, levava material suspeito para os policiais de serviço e não fora o arreio forçado e inexplicável das calças, e a confirmação inusitada da ausência de prepúcio, e o mais certo era ter sido detido por suspeita de tráfico de livros cabalísticos.

O sexo dos escritores

O dizer vulgar e provocador de ALA (António Lobo Antunes) sobre a menoridade artística de FP (Fernando Pessoa) enquanto “homo artisticus” pela sua suposta ausência de coitos (coitus nulus) atiçou as brasas de pessoanos, praticantes moderados, abstémios e abstinentes (que se distinguem no vício). Se Pessoa praticou ou não com Ofélia ou outras e outros e com ele próprio e os seus múltiplos, é apenas da sua conta. O efeito do absinto é perceptível, tal como a prosa destilada, torrencial, genial na inventiva e sem maus fígados. Vasco Graça Moura, a título de exemplo, um praticante a quem nos idos de juventude chamavam de o “7Up”, nunca foi pessoano idólatra nem andou perto do Orfeu, mas as suas embirrações e desassossegos guardava-os para o círculo restrito dos seus conhecidos a quem ironizava sobre o pau parabólico do poeta. Sou defensor apaixonado e convicto do poder curativo do sexo amoroso para o alívio de almas indispostas, e estou em crer que uma por dia tem o poder da ingestão de uma maçã (Golden). Uma destas, por mais ou menos inspirada, poderá dar uma página feliz, ou pelo menos uma boa gargalhada, nem que seja pelas barrigas descaídas, as varizes, os derrames, ou a polpa dos tecidos aparentada aos perus. Se FP praticou ou não praticou e desfrutou dos néctares de Afrodite além de Baco e de Cápua, e se ALA se ajeita (ou ajeitava) na cama e na cobrição como por vezes (muitas vezes) na criação dos seus escritos solipsistas e taurinos, são coisas de pouca monta que não devem ocupar o sossego dos espíritos.

Natal (reflexões)

"Vemos que todo este mundo é vaidade, que a vida é um sonho, que tudo passa, que tudo acaba, e que nós havemos de acabar primeiro que tudo, e vivemos como se fôramos imortais, ou não houvera eternidade."

P.de António Vieira

 

"E a certa altura não pude mais. E disse, e disse, secretamente, dificilmente.
 E disse. Devagar,
 Amo-te. E ela sorriu. Também te amo. 
Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. 
Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Tudo se desfez. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Uma palavra. Amo-te.

Vergílio Ferreira in "Para Sempre"

 

"(...) Tudo são notas e averbamentos, e muito pouco é a ciência original ou traduzida do mapa que é o coração humano. Todos querem escrever e poucos são os que resistem a isso. Escrever muito parece ser derivante dum padecimento de angústia e de debilidade em viver; ou o modo de evitar paixões, ou saciá-las sem as sofrer. (...)"

Agustina Bessa Luís, in 'A Monja de Lisboa", Guimarães Editores, 1985

 

Hino à Vida (Alegria)

Some things in life are bad They can really make you mad Other things just make you swear and curse. When you're chewing on life's gristle Don't grumble, give a whistle And this'll help things turn out for the best... And...always look on the bright side of life... Always look on the light side of life... If life seems jolly rotten There's something you've forgotten And that's to laugh and smile and dance and sing. When you're feeling in the dumps Don't be silly chumps Just purse your lips and whistle - that's the thing. And...always look on the bright side of life... Always look on the light side of life... For life is quite absurd And death's the final word You must always face the curtain with a bow. Forget about your sin - give the audience a grin Enjoy it - it's your last chance anyhow. So always look on the bright side of death Just before you draw your terminal breath Life's a piece of shit When you look at it Life's a laugh and death's a joke, it's true. You'll see it's all a show Keep 'em laughing as you go Just remember that the last laugh is on you. And always look on the bright side of life... Always look on the right side of life... (Come on guys, cheer up!) Always look on the bright side of life... Always look on the bright side of life... (Worse things happen at sea, you know.) Always look on the bright side of life... (I mean - what have you got to lose?) (You know, you come from nothing - you're going back to nothing. What have you lost? Nothing!) Always look on the right side of life…

 

“Devagar e em tempo para que a alma não fique para trás”.

Pde António Vieira

 

Amor "É estranho termos tão poucos laços com a natureza, com os insectos, com a rã saltitante e com o mocho que pia por entre os outeiros, chamando a sua companheira. Nunca demonstramos ter uma certa simpatia por todos os seres vivos da terra. Se pudéssemos estabelecer uma relação intensa com a Natureza, nunca mataríamos um animal para saciar o nosso apetite, nunca feriríamos nem dissecaríamos um macaco, um cão, uma cobaia para nosso proveito. Encontraríamos outras formas de cicatrizar as nossas feridas, curar os nossos corações. […] O ser humano matou e continua a matar milhões de baleias e tudo o que obtemos desse massacre pode ser conseguido por outros meios. Mas, ao que parece, o Homem gosta de matar, gosta de matar o veado em fuga, a gazela maravilhosa e o elefante pujante. Adoramos matar-nos uns aos outros. Esta chacina humana nunca se deteve em toda a história da vida do Homem na Terra. Se conseguíssemos – e é imperativo fazê-lo – estabelecer uma relação profunda e duradoura com a Natureza, com as árvores, os arbustos, as flores, a erva e as nuvens velozes, nunca mais massacraríamos outro ser humano, por motivo algum. Assassínio organizado é sinónimo de guerra."

Jiddu Krishnamurti, Natureza e Meio Ambiente, Edições 70, 1997, p. 71.

 

É importante foder (ou não foder)?

Cesariny

 

(...)

O Campos

Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia. 

Cesariny

 

Laços de Família V

Todos somos biografias inventadas, mesmo as escritas pelo nosso próprio punho. Somos este e somos o outro. Todos temos o bem e o mal encarnado, nem que seja a pequena erva daninha, assim como temos a possibilidade de escolha. Todos temos que lidar com as nossas naturezas e fazer pela vida com aquilo que nos é dado viver, as nossa faculdades, não deixando nunca de estarmos à mercê do destino, por mais conscientes das nossas decisões e escolhas. Tudo o que fazemos tem apenas uma razão de ser que é sermos. Sermos humanos.

Tiago Salazar

 

 

Paulo Amado (um escritor)

Para falar deste livro e deste autor, deste arrojado livro e autor, recordo as palavras de um amigo, talvez vosso conhecido, o padre Mário de Oliveira: A viagem mais difícil e mais fecunda é que fazemos dentro de nós, sem nunca chegarmos a encontrar o fundo, porque somos essencialmente Mistério, Pergunta-sem-Resposta. Mas são Relatos desta Viagem que estão a fazer falta, Hoje. De contrário, acabamos todos a Comer Dinheiro!

Paulo Amado, homem que conheço desde os tempos académicos, e com quem privei de muito perto, é um homem com tanto de crente como de descrente. As suas escolhas de então já deixavam adivinhar alguém ocupado (e não digo preocupado propositadamente) com o que fazemos nós aqui, a começar por ele próprio. A escolha das Relações Internacionais e a seguir do Direito não foram um acaso, mas sim uma escolha deliberada de alguém ocupado em situar-se como homem, indivíduo, cidadão e cidadão do mundo.

A Geografia que lhe interessava e interessa, como bem revela este livro, é a dos afectos, segundo o princípio canónico de que não te podes Unir a Deus sem te Unires aos Homens. “O Que Faz Deus Quando se Sente Sozinho”, ed. Âncora, (que é uma afirmação e não uma interrogação) é um livro de muitos méritos, a começar pela forma como descreve a possibilidade humana da Criação.

Adão e Eva, protagonistas e personagens do primeiro palco do mundo, são tolos como só podem ser todos os que despertam ainda estremunhados e apenas balbuciam. São embriões de seres, a quem Deus não trata como títeres, mas como gente que irá crescer, mais cedo ou mais tarde, e afirmar-se por si, como tudo se afirma, demore o que demorar. Pensar e sentir são verbos que aparecem cedo na narrativa, como se desde os tempos primevos não fosse pedido nada mais aos humanos. Pensar e sentir, para então existir de pleno direito e com as faculdades de que sejamos capazes.

Cito: “Dar tudo de bom, com capacidade. Foi nesta construção de minúcia que achou importante a capacidade maior, querer ou não. Julgar, escolher”.

Deus criou, mas é aos homens que cabem as decisões a cada instante que passa, sem que lhes seja pedida nada mais do que a Consciência dos seus actos. Até Deus reconhece cedo que não pode tudo controlar, pois a expressão da Natureza, por vezes é mais forte do que Ele. Deus, na solidão da sua Inteligência Suprema, sabe que nada se faz sem cooperação e sem delegar - como incumbir a difícil tarefa de apresentar um livro de Inteligência Superior, como é este. Entrega aos anjos, querubins e afins o trabalho, e não apenas o de sapa, o que não lhe interessa fazer e dele colher os louros, porque afinal tudo parte Dele e a Ele tudo pode ser atribuído.

Paulo Amado é um homem abençoado por 3 dons que eu conheça: o da palavra, o da amizade e o do palato. Ou seja, este é um livro de degustação de onde nunca sairemos enfartados. Estamos perante um escritor gourmet se tal se pode dizer. Um amante dos prazeres de Cápua e das delícias de Eros e Afrodite. Salomé é o ponto alto deste livro magnífico de forte carga metafórica e simbolista, onde aparecem os ovários de Eva, a Serpente e a Imaculada ao lado do Decameron.

Os leitores que apreciam o género pícaro tanto como os domínios do esotérico sentir-se-ão saciados. Voltando a Salomé: Paulo recupera um dos grandes mitos, glória de feministas, de sado-masoquistas, da liga de amigas de Louva-a-Deus. Neta de Herodes, o Grande e filha de Herodes e Filipe e Herodia, tendo sido criada na corte do tio, Herodes Antipas.

No Novo Testamento é apontada como responsável pela execução de João Baptista. Nos relatos de S. Mateus e S. Marcos, que em muito se assemelham, descreve-se uma festa no palácio de Herodes Antipas,na qual Salomé, sobrinha e enteada do tetrarca, dança para ele. Entusiasmado com o espectáculo, Antipas (provavelmente embriagado) compromete-se a dar-lhe a recompensa que ela houver por bem pedir. É então que intervém Herodias, mãe de Salomé. Herodias odeia João Batista, o preso nas masmorras do palácio, a quem acusa de adultério por ter deixado o seu marido, Herodes Filipe, para se juntar ao irmão dele, Antipas. Herodias instrui a filha para que peça a cabeça do profeta, e ela assim o faz. Ao tetrarca, que empenhara a sua palavra, não resta outro recurso senão atender à exigência da sobrinha, ainda que isso o constranja, pois receia as consequências dessa decisão, dado o prestígio de João junto ao povo. Aliás, este é o motivo que Josefo apresenta quando trata da prisão de Baptista no texto “Antiguidades Judaicas”. É o receio de que a crescente popularidade de João no seio dos humildes, sobretudo dos camponeses, possa conduzir a uma sublevação popular, que leva o tetrarca a adoptar uma medida preventiva, mandando prender o profeta. Ao tratar da prisão de João Batista, Josefo não faz qualquer referência a Salomé ou ao banquete onde, segundo os Evangelhos, se teria decretado a sua execução.

A história de Salomé, como é contada pelos evangelistas, tem sido objecto de inspiração para vários escritores de ficção, dentre os quais, o peruano Mario Vargas Llosa, o irlandês Oscar Wilde, o lisboeta José Rodrigues Miguéis (“O Milagre Segundo Salomé”), e agora o algarvio Paulo Amado.

É imperativo que o leiam.

O Que Fazemos Nós Aqui?

Entre o gene egoísta, cego, surdo e mudo, e o gene altruísta, há toda uma luta e não venha o Diabo e escolha. Fará toda a diferença se nascemos do amor, do sexo acidental, do amor sexual, ou mesmo da obra e graça do Espírito Santo? É sempre um acto animal, por mais desenxabida, a cópula de onde brotamos. A forma como crescemos, em quem nos espelhamos, no Deus ou no deus Pai e na deusa Mãe, que tanto são os que nos parem como os que nos ensinam vida fora, a cultura e a língua e as tradições que nos acolhem (e que talvez escolhamos antes de), os livros e músicas que nos chegam antes de educado o gosto, até chegar ao dia do rompimento em que nos tornamos indivíduos, conscientes das nossas escolhas.

 

Ontem vi um filme de animação magnífico, para aliviar o peso dos dias. “Divertida-mente” ou “Inside Out” no original, é o filme, que se não viram, vos aconselho. A neurociência está por toda a parte e nada melhor do que uma prodigiosa animação para nos mostrar como somos por dentro, todos sem excepção. Maravilho-me com o que o neurofeedback me tem trazido no mergulho desse ser que somos todos, com tanto de luminoso e animado como de obscuro e sangrento, e de como podemos ser apenas espectadores activos das nossas emoções mais rasteiras e animais. Ainda assim, diante do reflexo, do pavor, dos disparos da injustiça, seremos sempre bichos, com tanto de dóceis como de agressivos por conta da sobrevivência fatal, antes de podermos dizer que domesticámos o animal que nos habita.

Felicidade

Ao nível do palato mole satisfaço-me plenamente com vinho branco (estirpes durienses em particular), ostras (estirpes Saint Jacques e de Cacela Velha), percebes (percebem?), uma geladinha artesanal de copo gelado, um whisky irlandês (que irá já a seguir), um Cohiba siglo V, uns tremoços, o salame cá de casa, um bife argentino ou de atum açoriano, um gin servido e oferecido pelo Miguel Somsen daqui a dias no Príncipe Real, uma mesa de amigos camaradas (sem o peso cáustico da palavra). Ao nível da alma, nada como uma noite de amor, pois claro, noite em claro, claro está. Oxalá nunca diga como disse o Buñuel, que me libertei enfim do tirano. A alma fica feliz e contente se os filhos, por exemplo, dão umas belas gargalhadas e se soltam como só o fazem as crianças ou os loucos sadios, e talvez os humoristas e comediantes. Fico feliz quando escrevo e a escrita sai como agora, fácil, alegre, ladina, satírica se for o caso, e me der para dizer que ficarei feliz se a PAF for ao fundo, e passarem as passas dos Algarves o casal Silva e seus pagens. Fico feliz a ouvir o Keith Jarret (ainda que o saiba jarreta) ou o Mário Laginha e o JP Esteves da Silva, e tudo o que Mozart pariu, porque nada supera a emoção de ouvir um piano. Fico feliz a ler o Luiz Fernando Veríssimo, o Groucho Marx, o Woody Allen lúbrico ou a turma da Mónica. Felicidade é ver-me rodeado de pessoas felizes, de gargalhada fácil e generosa, que animam os outros porque é o que faz falta, e nada cobiçam, nem querem aclamação ou se querem é justa que lhes seja retribuída. Felicidade é ser capaz de fazer rir, nem que seja com umas cócegas ou a brincar ao chupa cabras. Felicidade quanto custa? Até aqui não fiz as contas, mas não deverá andar para além do ordenado mínimo. Felicidade é poder não pensar nas moléstias que traz a falta de dinheiro ou saber que a felicidade deu lugar à melancolia porque o dinheiro, que não compra a Felicidade, é bem capaz de ajudar a alugá-la.

Domingo de Inverno

A percepção à vista de um rio bafejado de luz nos azuis, cobalto, cinza, anil: o povo desunido jamais será vivido.

Temos as dissensões: partidárias, clubísticas, religiosas, semblatórias (do semblante).

 

Ontem revi o filme “Munique”, sobre o ajuste de contas após o linchamento da comitiva de atletas israelitas nos Jogos Olímpicos.

Um belo filme sobre o trágico da condição humana. A guerra sem fim. Civil, exercitada, excitada pela virilidade da supremacia - é sempre dela que se trata.

 

Esbarro na “Embaixada a Caligula” com uma das mil frases da profética Agustina.

 

“Os homens temem, acima de tudo, o seu próprio retrato”.

Que temo, dito de mim ou dito por mim, aqui, onde for? Temo pelos filhos, aos poucos. Temo a extinção do amor nas dores insuportáveis da raiva. Temo a cegueira, a minha diante das mais gravosas injustiças, a dos outros, contra as minhas no reverso da medalha. Temo Munique em todos cantos de todas as praças e não ouvir mais as tuas canções de onde choro como choro do nada que é tudo da maior de todas no meu fundo.

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