Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Dias Felizes

Dias Felizes

O Inferno são os outros

Se nos víssemos como os outros nos vêem ficaríamos arrepiados, ou talvez irados, furiosos, prontos para a guerra. E vice-versa. Mas é neste vice-versa que há todo o Trabalho a fazer. Por estes dias sombrios, a classe política é “julgada” pelos seus actos públicos, e bem haja se no púlpito ou poleiro vier a estar um benevolente, um bondoso, um bom pai e um amante capaz de distinguir o ódio do amor, e já agora que se ajeite naquilo que mais galvaniza a inventiva: a poesia. Tenho memória de um político à Lincoln, digamos assim, ou como imaginamos o pai fundador da América moderna. Chamava-se Manuel Gírio, era comunista afectivo de matriz cristã e seguidor do deus do esparguete, e nunca ocupou um cargo público notável. Foi dramaturgo e poeta mais do que tudo, como o defunto Vaclav Havel. Agora, nesta hora de suspense para lamentar, esperamos um Messias goês, um dirigente com nome e feições e bravura de índio, um padre lírico ou um corajoso activista à medida de um Luaty? Eu espero duas ou três coisas de um governo, governante ou líder, para me sentir pacificado com a ideia de nação valente, e voltar a ter esperança na ressurreição da ideia de pátria, além de me contentar com os gozos da língua e da escrita. Uma delas é simples: derrubar a ditadura fiscal.

Esperança

As cassandras, da direita ou da ala Belzebu, temem o Costa, a quem chamam de monhé nas costas ou aqui, nas trincheiras cabotinas. Fora do paleio de politologia, quem perde com a queda do Governo e seus muchachos? Passos & Portas? Os coveiros Dupond e Dupont, já orientados nas suas novas fileiras administrativas e cooperativas? Que mais se poderá perder após a queimada torcionária, na entrega prostituta da nação valente e imoral a quem deu mais? Aos analistas, a análise. Aos viventes, as provas de vida. Não sou de esquerda, nem de direita, nem de centro. Sou português, nado e criado, a bater nos 44 quando chegar a Primavera, e nunca vi um Portugal tão desesperançado e tenebroso, tão cabisbaixo e promíscuo como o dos últimos quatro anos. Agora começa o festim dos que nada fazem a disparar ao elenco de novéis ministros, a ir aos armários sacar os esqueletos, a satirizar ou a escarnecer os passados mais ou menos recentes, os apelidos, os currículos. Como diria o chefe Silva, o quase defunto elegante, o queixada de clown, deixem-nos trabalhar. Que fique o slogan a pairar e haja esperança nalgum renascimento, nem que seja o da façanha de respeitar quem trabalha como se lhes fez, aos lendários P & P, antes de ter dado no que deu.

Ciganos

Comia uma tarte de maçã, devagar, como pede tudo o que cai bem, quando o rapaz tisnado me abordou do outro lado da mesa.

- Posso pedir-lhe um favor? - perguntou, num português de matiz romeno.

- Disponha - disse, adivinhando a natureza fiduciária do pedido.

- Preciso de dinheiro para comprar um litro de leite e bolachas Maria. É para a minha filha mais nova. A mais velha não a vejo há dois anos. Está na Suíça - desferiu, sem delongas.

 

Tinha duas revistas “Cais” na mão. Pensei em comprar-lhe uma, sem ficar com um exemplar. Daria para o pedido. Sentou-se ao meu lado, como se precisasse de conversar com urgência.

- Você tem filhos não tem? - perguntou. - Tenho. 3. E este país não está para tê-los.

- Que é que você faz? Escrevo. Histórias. Quer ouvir uma história?

- Disponha.

 

Falou então da sua vinda para Portugal, há 6 anos, com um primo. Falou dos filhos, das dificuldades, sem azia. Falou da sua raça, cigana, nativa. Falou de "gipsy", da língua Romany (corruptela do dialecto Hindi), e das afinidades com o "Traveller", o Viajante, o nómada. Falou de cavalos, de sinas, de música e artes, tanto como de roubos, sequestros e ajustes de contas. Falou com orgulho, e desagrado das coisas que se dizem, muitas delas verdades, tristes, mas de como tudo fazia para evitar essa vida. Falei-lhe de uma comunidade cigana de Alvalade, onde aprendi a arte do regateio antes de chegar aos souks magrebinos, e das suspeitas da origem do apelido Salazar ter afinidades com uma tribo Roman emigrada no sul.

Riu, enquanto olhava para os meus apetrechos, o portátil, o cachucho de prata da caveira, os óculos Ray-Ban. Falou que ganhou muito dinheiro, quando vendia carros ("bombas"). Depois mudou de ramo e tornou-se "pedagogo”, como se diz na Grécia de quem ajuda.

- Se fosse na Índia era um guru. Aqui sou um gigolô - disse, com absoluta seriedade.

- Perguntei o que entendia por gigolô.

- Alguém que faz do amor um modo de vida, pois amores e formas de amar há muitas - disse, com sorriso de cigano e olhos oblíquos.

Aos amigos

Estar com amigos é estar no terreiro da felicidade, essa palavra tão cara à humanidade em sobressalto. Estar entre amigos é estar no centro sem haver nenhum que seja o centro das atenções, pois todos o são - e é são que o sejam. Dormir na casa de amigos, amigos de gatos, é uma benção. As casas, as caras e os focinhos bigodudos dos gatos, que são caras também, dizem muito dos lugares e do que lhes vai nas almas. Quero com isto dizer, a todos os amigos, do peito e de todas as partes: bem haja a quem me serve uma mesa farta de petiscos, quem me rega o copo até me saciar a embriaguez na medida exacta sem me entornar e me ensina o doce prazer de ter esperança na amizade como o valor mais elevado.

Lenine

Ontem fui no show do Lenine onde o cantautor estreou "Carbono". Nunca tinha ido a um show de Lenine. Agora sou enfim testemunha deste deus da poesia de intervenção, caleidoscópio de ritmos (do frevo ao rock e sei lá mais o quê de sons do universo), aquariano, pernambucano, redentor de latitudes infindas, de juventude impressionante.

Saí do show com vontade de escrever um poema para Lenine.

 

Saiu assim relâmpago.

 

Astro flamejante

Poeta dos audazes aflitos

Rosa de 1000 ventos

Farol e faroleiro

Willie Nelson baiano

eu te amo

Cabaz de Natal

Whiskies

 

Lagavullin 16 (um grande clássico)

 

Ardbeg Alligator (puro fogo)

 

Balblair 1990 (para os fins de tarde chuvosos)

 

The Macallan 12 (o clássico dos Highlands, em particular o cherry oak cask)

 

 

A'bunadh de Aberlour (para terminar o "bouquet final"; aqui entramos no verdadeiro misticismo)

 

 

Reflexão Política

Eu, tal como o desobediente civil Henry David Thoreau, aceito com entusiasmo o lema que afirma - “O melhor governo é aquele que menos governa”, e gostaria de vê-lo posto em prática de forma sistemática. Uma vez posto em prática, ele acabaria resultando em algo que também acredito. “O melhor governo é aquele que não governa”. Quando os homens estiverem preparados, será exactamente este o tipo de governo que irão ter.

O governo é sempre, na melhor das hipóteses, um mal necessário. Mas a maioria deles é geralmente - e todos eles são, algumas vezes - um mal desnecessário.

Quem precisa efectivamente de ser governado a não ser o governo da sua própria conduta? Não perdemos a nossa integridade e mesmo a nossa vitalidade ao sermos dobrados pela intenção do voto achando ser outro capaz de levar por diante, os nossos desejos de paz e prosperidade, aquilo que na nossa infantilidade achamos estar a cargo de outrém? A lei jamais conseguiu fazer com que os homens se tornassem mais justos e muitas vezes o próprio respeito que ela inspira transforma o mais justo dos homens num agente da injustiça, servindo ao Estado como máquinas de guerra, agiotagem e estupro.

Os governos demonstram como é possível enganar o povo e até mesmo enganar-se uns aos outros em seu próprio proveito. Nenhum governo deste burgo mais recente demonstrou capacidade de criar homens livres, de educar o povo a quem pede votos, levando o mais das vezes os pais de filhos a arrastarem-se para terem como prover o pão para a boca, além do acesso à educação. Em suma: o mal necessário convida a que se escolha aquele em que mais nos revemos como um espelho do que acreditamos ser uma voz digna e elevada. Posto isto o meu voto vai para… o Dalai Lama.

 

P.S. Todas as formas de votação são uma espécie de jogo, semelhante ao xadrez ou ao gamão, com uma leve conotação moral, uma forma de brincar com o certo e o errado, com as questões morais, e as apostas são um complemento natural desse processo. Não está em jogo o carácter dos votantes. Eu voto de acordo com aquilo que me parece ser mais certo, mas não estou grandemente preocupado em fazer com que o que é certo vença. Estou disposto a deixar que a maioria vença. O seu compromisso jamais ultrapassa, portanto, os limites da conveniência. Mesmo ao votar pelo que nos parece justo não estamos a fazer nada em prol da causa. É apenas uma maneira de expressar, debilmente, aos outros homens o nosso desejo de que o que é direito acabe por triunfar. Um homem sábio jamais entregaria a defesa do que lhe parece certo aos azares da sorte, nem desejaria que vencesse graças ao poder da maioria. O único voto que interessa é aquele que expressa a sua própria liberdade.

A metafísica do sexo

A verdade embriagada da sede de viver porque morrer é sempre um pavor ainda que haja o budismo, o nirvana, a promessa do Éden, dos Jardins de Alá (para alguns).

Anotações: Sabor (agridoce), corte púbico (aprimorado), olhos (meigos), pele (sedosa), pernas (macias), unhas (cuidadas), verniz (retocado), graça, gemido, fala (sempre cuidada) falo (sempre cuidado).

 

Nota final: Há que tocar a alma, antes e depois de tocar o fundo. Aí, nesse lugar solitário, se instala o compasso, o pêndulo de Foucault, quando o corpo está a mais e só apetece mais.

 

Martim

Hoje o meu filho Martim faz 12 anos. Estamos juntos há mais de 10. Nunca viu outro pai a quem chamasse de pai, donde, este é o meu filho. Não sei ao certo como é para ele o laço de pai e filho. Se é mais ou menos apertado, mais ou menos viçoso, ainda que o oiça chamar-me de pai sem hesitar, ou abraçar-me e procurar-me para conselho ou apenas por artimanha, como faz o mais pródigo dos filhos. Tenho mais duas rebentas. É claro que tendo a olhar a caçula com mais tolerância e a fazer-lhe coisas e a falarmos de coisas, que à mais velha (Carolina) parecerão próprias de duas crianças, e ao meu filho (Martim), agora um rapazola na puberdade, serão dignas de um desenho-animado para bebés. Aos doze anos, gastava as horas a jogar à bola (a dar toques, sobretudo), à carica, ao berlinde (ou ao guelas), ao pião, a construir casas nas árvores e andar à chinchada ou a escapar aos ciganos chonés, antes de ser convertido à sua aldeia no coração do Areeiro. Morava num bairro de rapazes, onde as raparigas estavam em manifesta inferioridade numérica, pelo que a perdição e o amor ficaram adiados para outras paragens. O meu filho devota-se ao Ipad e ao iPhone como em tempos me terei devotado ao ZX-Spectrum e ao Subbuteo. Quando daqui a nada lhe der um livro a cheirar a mofo, da Biblioteca dos Rapazes, de título “As Aventuras de um Rapaz nas Florestas do Amazonas”, do Ballantyne, vai praguejar como o gru mal-disposto ou vociferar como o anão zangado, mas ficará radiante ao abrir o livro e vir lá dentro um jogo, em louvor dos tempos modernos.

Carolina

E aí estão os 18 anos, a flor da idade, a emancipação, o voo largo das grandes asas. Da Carolina, a minha filha mais velha, a aniversariante do dia, elemento ar, signo Balança, arcano Justiça (e o equilíbrio e a justiça em pessoa), posso dizer ao mundo estar aqui uma Grande Mulher. Tenha ela o trabalho que vier a ter, estou certo de que o fará na justa medida e com os dotes sorridentes e solares de uma comunicadora do pensamento-sentimento. Tem bons genes, a cachopa! Porque falo de uma filha, de um grande amor, e aqui partilho os meus próprios pensamentos e sentimentos? Porque nesta rede - que podia ser um livro, jornal, revista ou fanzine - estão amigos a quem posso chamar de amigos, à mistura com gente de que nada sei nem saberei, nem tão pouco se lhes chegará esta missiva, pois sou info excluído e desconheço os graus de penetração. Sei que os senhores do FB me pedem umas coroas para ter mais leitores, tanto como me censuram se me estico nas minhas liberdades. Hoje, apenas me importa chegar ao coração da minha filha e dizer-lhe o que disse na dedicatória do meu primeiro livro, por conta de tantos dias perdidos na minha condição de pai ausente, viajante, e por estes dias exilado. Dir-lhe-ei daqui a nada ao ouvido, com o mais forte e puro dos sentimentos: eu nunca te deixo quando me afasto.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Favoritos

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D