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Dias Felizes

Dias Felizes

Margarida

Daqui a nada, neste instante-já, o impacto desta emoção imensa, desmedida, torrencial, febril, como (me) nascem as mais vincadas paixões, irá dissipar-se como um sopro, uma respiração, uma aragem. A ela voltarei, porém, como nunca deixamos de voltar aos nascidos de nós e aos de quem nascemos, do sangue e de abaixo do sangue, os mais próximos da união perfeita. Os seres das palavras indizíveis, do silêncio imperativo, que se abre e fecha num abraço voraz, como um golo de água fresca diante da sede, como ver na surpresa do caminhar distraído quem amamos do amor inquestionável. A emoção de ver-te o rosto ainda mais radiante, os sapatos novos num arrumo impecável, a saia cinzenta plissada de goma, a camisinha branca de estampa, os soquetes vermelhos, a mochila, os livros, as sebentas, os lápis, os pincéis e os guaches, mais do que tudo, habitada pelo teu lindo e sincero olhar astuto que distingue, como eu nunca serei capaz, como se chega de um amarelo vivo a outro torrado ou do azul anil ao cobalto. É o teu primeiro dia de aulas e tudo em ti fervilha de alegria potável e efusiva, como no teu primeiro dia de vida onde nada se divisa a não ser o grito da fome e da sede, que é o da vida dos ávidos do princípio ao fim, no primeiro dia de tudo o que conta. Adivinho-te, nas tuas danças de palavras e pinturas aladas o dom maior, o de seres já uma grande mulher, querida Margarida, querida Gigi branquinha.

Comediantes

Os comediantes gozam das honras da fama desde Plínio, o Velho, conhecido não apenas pela sua sapiência, mas também por contar piadas de gregos como nenhum outro romano. À descoberta de 35.000 factos úteis, Plínio juntou uma piada sobre a proeza dos elefantes com a rigidez da tromba, muito antes destes servirem de atracções de circo ou de haver um bar de alterne em sua honra (dos elefantes). O mundo sem humor é estéril e a política apascenta como nenhuma outra actividade a veia cáustica dos seus praticantes. Como abordar sem sarcasmo, ironia, gozo, sátira ou espírito, por exemplo, a capacidade de trabalho de Durão Barroso, meu antigo professor e coordenador de licenciatura, que em 5 anos lectivos, apenas vi em duas aulas, onde falou dos seus feitos com o fácies orgulhoso de um elefante? Terá Barroso a velocidade do cherne, a brida da Nautilus ou um homem duplicado que lhe permita estar em todas, como soe dizer-se, e de todas receber o seu quinhão? Barrosos há muitos e nada palermas. O regresso do desertor e coveiro amesendado não tardará a ser anunciado com a aura de um comediante e as plateias estarão repletas de bocas de sapo.

Outras formas de Ver

Passa no corredor do comboio um homem cego, de idade avançada. A cabeça calva com equimoses, decerto de quedas em passeios e ruas acidentadas que o zingarelho de mão a dar e dar, ou o cão que não veio, foram incapazes de evitar. Penso de relance no que será a vida deste homem que caminha solitário como terão pensado outros que dirigem o olhar para a sua cabeça ferida, as cicatrizes onde nunca houve olhos que vissem as belezas do mundo. Penso como a vida se anestesia com tristes dicotomias quando o caminho é um só.

Japonesices

Se admitirmos o facto de que cada vida e os seus respectivos dias e horas servem a evolução de cada ser vivo, e que teremos vidas sem conta até chegarmos ao zénite da evolução, onde nos fundiremos com Deus ou a energia divina ou o nada dos seres ateus, há países onde - aparentemente - a evolução do colectivo parece mais avançada, segundo o princípio de que a união faz a força. Há dias falei do povo Kanak e cometi a ousadia de dizer que enquanto povo/cultura desconhecem palavras que no mundo dito ocidental atormentam muita gente, como a inveja e o ódio, duas entre várias. Quando falo de povos que me inspiram, ainda que seja por ter com eles um breve contacto e de comunicação limitada, falo acima de tudo de gente que me inspira confiança e que se transmite no olhar, a ponto de lhes poder retribuir um sorriso honesto e sentido, nascido para além da boa educação ou da diplomacia. Falando das entranhas, ainda estou no estádio do amor, com amor se paga. As palavras de belo efeito leva-as o vento sem os actos que lhes correspondam. Se há coisa neste Japão é que os actos, aqui invariavelmente delicados, bondosos e polidos, são tão valiosos como as palavras. Um japonês faz questão de agradecer por termos esperado, por exemplo, antes de nos atender, tal como se baralha, como uma barata tonta, se passamos à sua frente na fila ou alteramos o pedido, apenas por termos mudado de ideias. Não há civilizações exemplares, nem modelos de conduta, a não ser nos que praticam a idolatria, que não é o meu caso, apesar de nutrir simpatia fanática pelo Shogun e os seus meneios de espada, por exemplo, ou pelo inexcedível escritor Kawabata.

Quo Vadis, Portugal?

- Este seu livro é um Quo Vadis, Portugal? - observou um leitor atento.

- Leu bem. É um requiem - consenti. É a história de um indivíduo preso às contingências do seu destino individual e colectivo, como todos seremos.

- Pode ser lido como um romance a certa altura, quando entra na auto-ironia, ou como o anti-romance já que é essencialmente autobiográfico - prosseguiu o leitor atento.

- Talvez toda a escrita, tal como toda a vida humana, seja apenas isso. Laços de uma grande família cheia de desumanidades, mas a abarrotar de esperança num paraíso, isento de taxas, de clima temperado, nem demasiado quente, nem demasiado frio.

A Mensagem

- Se tivesses pela frente uma conta para pagar de 11 anos, à razão de 4 salários mínimos, nascida de uma injustiça flagrante, grave e notória (como diz a lei) como estarias? O que farias com a tua vida, a tua arte, o teu ser humano a partir do dia dessa sentença sem apelo e com agravo? O que farias se convivesses uma e outra vez com a angústia dos teus filhos, da mulher que muito amas, a tua própria cruz, e nada do que pudesses fazer resolvesse a dívida, sem teres nascido para escravo?

 

As opiniões divergem e bem haja, pois a unanimidade soa a campanário e a dobre de finados. Para uns, o timbre do livro, o Quo Vadis? é flat (ao encontro dos olhos ferinos da capa, olhos de Rasputine). Onde está o sangue, diante dos anúncios de suor e lágrimas? Depois, nas apresentações, lá entendem o que pretendo dizer quando o digo com factos e verdades inatacáveis. Digo que estou fodido com as entidades soberanas deste país de cabotinos e usurpadores, digo que aprecio o uso de palavrões quando ditos na passada certa (fazem parte dos melhores dicionários), digo que aprecio dizer o que penso e sinto a partir da única reflexão possível, a que se passa nos calabouços da minha alma. Disse e digo e direi até ao fim diante de todas as injustiças, que, em mim, as palavras que soam mais alto dizem Independência ou Morte. Isso faz de mim ingénuo, naif, idealista, romântico? como já ouvi, incluindo de um apresentador deste livro diante de uma plateia estupefacta com a escolha do apresentador, que mais parecia da oposição e a soldo da Real Politik? Estou-me nas tintas para o que dizem ou pensam sobre o meu trabalho, excepto se o que digam ou pensem e ventilem seja abjecto de desumano, como a do cavalheiro que pôs em causa a minha ida para o estrangeiro como uma traição à pátria. Que pátria? A que nos trata como números e contas bancárias? A ser alguma coisa sou o que sou, um anarquista civilizado, pai de filhos e paladino do amor, ou apóstolo do amor, em louvor do São Tiago.

Bois e touros

Os bois pelos nomes

Os touros pelos cornos

Nestas duas belas expressões trata o idioma de nomear o gado ovino como fiel depositário da virtude e da honra e da justiça.

Começando pelos bois pelos nomes e usando o gerúndio estando eu nas Terras de Vera Cruz, há que nomear, antes de mais. Se um problema nos aflige e as soluções escasseiam tendemos a dirigir a nossa ira (fúria, cólera, raiva, indignação, dor de corno ou de alma) para alguém. Por exemplo, e no meu caso específico de catarse literária recente, o chefe da repartição que manuseia a tenaz, o investigador zarolho e amanuense gozoso com o poder do seu ofício, e, em primeira instância, o governo que governa apenas para os seus pares sedentos de uma gamela dourada e do seu Tosão. Agarrar os touros pelos cornos pressupõe um elemento secundário, a existência de tomates, e em vendo pegadores de touros, os chamados forcados, somos levados a acreditar que estes dificilmente serão levados para uma forca. Agora que escrevo penso numa ajuntamento de forcados tomados pela indignação da queima dos pastos lusitanos a pegar de cabo a rabo tudo o que são cornaduras mais ou menos mansas do burgo. Assim teríamos a Revolução dos Cornos depois da Revolução dos Cravos, cornos que como se sabe dão sorte.

O medo (NÃO VAI TER MUITA FORÇA)

Querem calar as pessoas com o medo. Querem silenciar as vozes com a ameaça (da perda, da avença, do título, da acção, da propriedade), mas a acção veemente, essa, só a morte trespassa. Querem que caminhemos baços, atarracados, de cabeça baixa, à babugem da sinecura, da palmada nas omoplatas. A feira - a minha feira - não será nunca cabisbaixa. Se todos contassem o que sabem dos podres (com factos) que verniz estalaria? Gostam de falar, os biltres, dos telhados de vidro. Amar demais (o amor, a vida, o desejo, a verdade) não é pecado. O pecado é a construção da hipocrisia. Se todos contassem, olhos veros nos olhos cabotinos, dos seus amores e paixões sinceras, no lugar de o dizerem entre pares, entre portas, entre paredes, não seria o mundo mais limpo? Ou a mentira e a hipocrisia são parte do jogo da alegria? Esse país aldraba de albarda.

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