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Dias Felizes

Dias Felizes

25 de Abril (Sempre)

Aos dois anos a memória, se a houvesse, nítida e verosímil, seria de papas Maizena, gemadas de quatro ovos, beijos de esquimó da avó Vessadas e a frota de carros do meu avô Gomes, um dos lesados da Revolução. O apelido Salazar poderá indiciar “bué de equivocos” como me disse um dia a escritora Luísa Costa Gomes. Pode dar jeito e dar logo azo a repulsa como se estivessem diante de um fascista leproso. O Salazar, que é apelido de ciganos espanhóis, e mais tarde de mercenários leoneses e leoninos ao serviço d’El Rei D. João I, então Mestre de Avis, que por aí ficaram por conta de terras ganhas pelos feitos fratricidas em Aljubarrota, foi ficando até se ramificar nos Oliveiras, Campos e muitos outros cujas biografias merecerão o devido rigor que não me cabe a mim discretear (para isso temos há sempre um primo genealogista, o Zé). O 25 de Abril chegou e eu estava, ao que parece, em casa de um avô mais tarde tomado por partidário do antigo Regime só por ter feito dinheiro com trabalho honrado. A história que sempre ouvi contar foi de lhe terem sido abafadas acções valiosas e de nunca, até hoje, terem sido ressarcidos os descendentes. A origem das cóleras bíblicas do lado Gomes poderá estar aí, nessa filha putice equiparada às histórias da banca dos nossos dias, que salvaguarda os maiorias, os das 25 famílias de poderosos, que mandam nessa merda toda, e deixa os que fazem pela vida, com mais ou menos sucesso, à sua mercê. O avô Gomes nunca recuperou do ximbaláu e viveu amargo e recolhido até morrer de enfarte. Refugiava-se na comida, no Fiat 500 e nos netos com a sua ternura infinita. Devo ter passado o 25 de Abril de volta das grandes orelhas e mãos papudas do avô Gomes, sentado ao seu colo na poltrona de couro coçado da Leite Vasconcelos a olhar para os Budas de porcelona a rirem-se em cima do psiché. Imagino o avô a embalar-me à frente do televisor recolhido nos seus pensamentos, sem vociferar, sem apregoar nada, pois se fosse para tratar da saúde de algum facínora, o mais certo era sair discreto, por o seu chapéu de feltro, e ir aviá-lo para voltar a casa de fato impecável como se nada se tivesse passado. Todos os dias 25 de Abril, o avô Gomes, que nunca foi fascista nem comunista nem politizado, e que os achava a todos uns palhaços cheios de si, ia passear comigo. Íamos só os dois, comer frangos assados à Praça do Chile e lavar o Fiat nas máquinas de lavar onde um dia me borrei todo achando estar a ser engolido por um brontossauro metálico. O avô foi-se cedo de mais. Foi-se consumido pelos desgostos. Foi-se, porém, de integridade e coragem intocadas. A revolução para ele, que sofrera a morte de uma primeira mulher e de um filho recém-nascido no auge de uma história de amor proibido, estava em ser um chefe de família, um patriarca, um exemplo de nobreza de valores e sentimentos.

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