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Dias Felizes

Dias Felizes

As minhas lutas

Toda a gente poderá dizer ter uma luta ou lutas em curso, além de Adolfo. Enobrecem-se, nos Homens, a coragem e a hombridade, o sentido de justiça e a integridade, a capacidade de se colocar na pele/alma do outro, de ver, e mais ainda de ouvir, escutando-o, como se pode fazer com quem lê um escrito, lendo as emoções que dele transpiram. No meio do burburinho, do grito, do insulto e das cóleras que nos temperam a todos, mais ou menos bíblicas, há factos contra os quais não haverá argumentos.

1) Um sistema aniquilar um indivíduo como o faz o angolano e fará enquanto não for travado, seja por golpe de estado ou pela política internacional

2) Um sistema prevalecer sobre um indivíduo como o faz a Administração Tributária na impunidade dos tiranos

3) Um Presidente anular o eleitorado que não pertence à sua tribo com despeito e despautério tomando os seus pares por parvos Todo e qualquer que se apodera do que não lhe pertence abusando da confiança de quem nele a depositou

Cumpre a qualquer um:

Demonstrar de viva voz os crime inqualificáveis de que são alvos, por conta de uma organização legal de métodos aviltantes.

Demonstrar de viva voz todo e qualquer indivíduo(a) implicado(a) em processos de usurpação e extorsão

Demonstrar todo e qualquer tipo de injustiça

Gatos

De quantos gatos e gatas posso fazer um retrato físico e psicológico? Na minha árvore genealógica felina houve, de antanho, a Amélia, a Amália e a Emília. Depois, já no pleno vigor de macho, acolhemos, no lar, à vez, a Camila, o Minouche e a Branca, apadrinhados pela matriarca Olga Neves. A vida encarregou-se de levar a tigresa listada de pêlo ruivo e aloirado e de olhos de lince para paragens de que nunca saberemos, tal como o príncipe Minouche, um gatão das sete léguas que o mais certo é ter embarcado para as arábias onde andará a passear o seu bigode vaidoso. A Branca é a senhora desta casa e de outras e de todas para onde viaja como uma Nefertiti. Só passados quatro anos fui informado pelo meu filho enciclopedista desta ser da distinta raça Bombaim, e de bater certo com os seus meneios de goesa lúbrica merecedora de festas e do mais esmerado cardápio. Tratada como princesa de trono atapetado e almofadas de cetim, apesar dos seus apartes gulosos de vadia e vira-latas, goza de direitos adquiridos, tais como passar os seus dias à varanda a namorar as aves, a quem decerto bicaria o cachaço com patas delicadas, como o fez um dia a uma abelha zaranza, perdida das suas flores, que à sua maneira magnânima, devolveu à colmeia.

Procura-se: Vivo ou Morto

A lei quando nasce não é para todos. Legalmente, um particular pode escolher onde quer pagar os seus impostos e até emigrar para países que não os cobram, porque a sua riqueza (dos países) assim lhes permite. Pagar impostos justos é um acto de cidadania. Impostos que sejam justamente redistribuídos ao abrigo de um Direito Fiscal retributivo e igualitário, de justa hierarquia. A opção em causa, de emigrar para um país que pratica a justiça fiscal, e que contempla um agregado familiar, deveu-se a uma correcção de impostos abusiva, que ditou novos pagamentos por métodos indiciários de uma quantia que o levantamento do sigilo bancário e a demonstração dos argumentos levaria a concluir da injustiça em causa. Bastaria terem-se cruzado dados com as pessoas implicadas na actividade profissional da minha mulher e a justiça teria sido reparada. O Fisco assim não o entendeu e ditou uma sentença irreversível, e apenas contestável pagando honorários e custas de tribunal chorudas. Ou seja, o sistema está feito para a extorsão e o abuso e a injustiça, neste caso flagrante, grave e notória. Falo do particular para o geral, porque ninguém é caso único de nada. Falo sem cinismo ou sarcasmo. Falo de histórias de pessoas minhas conhecidas que estão muito para além da minha, histórias que ditam a pobreza de um povo (ou a riqueza, quando há Justiça). Este tipo de actuação é tão grave e censurável como qualquer actuação de um regime totalitário. A Administração Tributária (AT) é uma entidade supra poderosa e tem ao seu dispor mecanismos de extorsão equiparados a qualquer egrégora despótica. Esta é a minha/nossa vida e assim será longos anos, 11 no total, isto durante o crescimento de duas crianças menores. Quantos portugueses não passam pelo mesmo calados no seu sofrimento? Podemos rir de uma situação destas? Fazer humor, mesmo negro? É como fazer piadas sobre refugiados ou judeus vítimas do Holocausto ou condenados sem justa causa. Há muitos estropiados que não se podem defender, e outros que viverão airosamente na economia paralela. O que me move e moverá até ao fim é apenas isto: ir contra todo e qualquer tipo de injustiça.

 

Wanted

Um homem paga (paga caro) por um crime não cometido. 


Um homem não se faz de vítima.


Um homem é vítima do sistema não é vítima por sistema.


Um homem quer ser Homem porque não pode ser outra coisa na condição humana.


Um homem telefona para o sistema.
Um homem ouve do sistema como se ouvisse a rábula de um pai tirano sem exemplo capaz.


Um homem ouve "a máquina é terrível; a máquina é implacável; a máquina mata lentamente; a máquina tortura, a máquina foi a única capaz de apanhar o Al Capone".

Um homem quer ser o Al mas um homem é só o Sal de alcunha. 


Um homem não tem capote de pau.


Mas um homem é um homem e nenhuma máquina o pode mais do que matar.

Porto (ode à cidade)

A primeira vinda ao Porto deve ter sido na fase cigana, quando a família andava de furgão a vender alpergatas, no negócio do comércio por atacado. As memórias mais fundas e felizes de cirandar pelas vielas da Naçãoe são de um namoro com uma tripeira cruzada de menina da linha. Vínhamos de comboio e à medida que o Norte se instalava na paisagem, a pronúncia acentuava-se, até ganhar o travo da Fontaínhas, onde nos hospedávamos na casa do irmão, mais velho uma mão cheia de anos e pai de um rancho de filhos. Quando recordo essas vindas, e falo dos camaradas Barros, pai e filho, e das noites na casa das Fontaínhas, penso sempre num episódio dos Monthy Python passado na Irlanda de Beckett. A casa, pequena demais para a povoação doméstica, umas águas furtadas a meio de uma rua a pique que desembocava na Ribeira e no musgo verde do rio, vivia sempre animada de berreiros e palavrões e gente pobre, mas à sua maneira, feliz e desabrida. Foi lá que me iniciei no calão, bebi zurrapas, soube das diatribes entre as Antas e as Eirinhas, e aprendi a dormir de pé com umas botas cinco números acima, para me aguentar sem cair, abraçado aos seios fartos da minha tripeira. Quando agora me fizer à estrada e subir às Antas, onde um dia fui ver o Madjer e seus pares aviar os alemães, farei o tirocínio desses verdes anos, ao calcar a folhagem dourada e ouvir um galhardo carago seguido de uma ode ao morcão.

Romance

Antes de chegar ao romance não tinha a noção de quanto a escrita pode ensinar a olhar para as coisas da vida (que são todas) de outras formas. Por exemplo, ao escrever sobre uma família, tenho diante de mim e dentro de mim, um laboratório de acções e emoções que me fazem psicodramatizar a minha própria família - e todos os relacionamentos colaterais. O romance trata de uma família muito poderosa que levou longe as palavras filantropia e mecenato, antes de ser exterminada. Poderão dizer o que quiserem e duvidar das boas intenções destes homens notáveis. Poderão julgar os seus actos como fantasias perdidas no tempo ou exageros de uma história escrita pelos poderosos, simpatizantes da causa (judaica) interessados em colher dividendos. Escrever é sempre reecrever e interpretar segundo os nossos próprios sentimentos e reflexões, e o que realmente me importa é como o faço e como estar dentro do que serão os outros, ou do que terão sentido, e o que os terá movido a exortar o Belo, a dedicarem vidas atrás de vidas a enobrecer o nome (o Nome), a doarem somas atrás de somas de tudo o que ganhavam e a patrocinarem os que, por não terem os meios, se viam impedidos de se dedicarem em exclusivo aos seus talentos, no lugar de gastarem ou cristalizarem a sua fortuna. Num tempo em que o dinheiro e o poder são um tema tão fraturante, como o têm sido através dos tempos, esta é uma história admirável. Oxalá tenho sido capaz de a dignificar com as minhas ínfimas palavras.

Noite Branca

Uma pilha de livros à cabeceira, aos pés da cama, no chão, em cima do travesseiro, diz o quê deste vosso amigo? Que sou omnívoro de livros? Que os livros são a minha rede do trapézio? Que sem as memórias de Giacomo (na tradução de Tamen) por perto, a vida é muito menos suportável? Ou os textos de Proudhon, Stirner, Bakunin e Kropotkin para me reavivarem a memória do lugar do Homem no universo, a par das poesias de Tagore? A Selva, do Ferreira de Castro, também aqui dorme, para que as regras do ofício não se descurem. O Sandokan, ali à esquina do quarto junto ao Corsário do Salgari e do Fantasma cujo anel tanto amei em puto que se tornou o meu cachucho de anelar na meia idade. A morte cheira a esturro por tantos e todos os lados, mas tenho aqui O Livro dos Mortos dos tibetanos para me apaziguar, se a ideia de morte (antes do tempo, e é sempre uma pena) me afanica o dia. Noites horrendas as dos que não têm o consolo dos livros ou os que não podem dizer como disse Blaise Cendrars, troco todas as minhas páginas felizes, de mão feliz, por uma noite de amor contigo. Um beijo dos nossos, onde quer que estejas.

Escrever

Há anos, quando cismei em ser escritor, num curso da maestrina Luísa Costa Gomes, era perguntado aos formandos “que tipo de escritor quer ser?”. Andava entranhado de Miller e Celine e respondi com apartes de escritor modernista “do real plausível”. Estes, a par de Conrad, pareciam-me os mais autênticos e capazes de traduzir o coração das trevas e a esperança da alegria na triste condição dos bípedes. Era como se os livros queimassem e dessem consolo às pupilas gustativas. Gosto de dizer que sou escritor, apenas porque escrevo sobre o que tiver que ser, quando talvez me ajeitasse melhor, e fosse ainda mais feliz, a dar toques numa chincha ou a podar sebes como o Eduardo mãos de tesoura. Escrever ainda é para mim uma festa (da língua e dos sentidos) por isso insisto neste prazer desmedido. E sou grato a um punhado de amigos que por aqui pululam, como a Patrícia Reis, o Hugo Gonçalves, o João Tordo, a Cristina Carvalho, a Ana Margarida de Carvalho e o seu talentosíssimo pai, o Pedro Teixeira Neves, a Ana Borges e o mais recente Casimiro, que esteja eu onde estiver, fazem deste lugar um espaço arejado e digno de visita.

Marília, A Victoriana

Um livro é muito mais do que nele está escrito. Um livro é uma alma vestida de muitos corpos. Um livro é uma materialização de um autor/animal volátil. Um livro é um strip-tease ou uma cebola por descascar. Um livro que não comove, um livro que não agita, um livro que não questiona, não queima, não é um livro. Ou seja, tudo o que este livro não é. Este é um livro de uma mulher que é plural, um bouquet de mulheres das que correm com lobos. Nesta aparência frágil está uma guerreira, uma amazona, uma Pasionária que não espadeira contra a podridão do mundo que vê, mas, prefere derramar um olhar compassivo sobre tudo o que a faz sofrer e que nunca a poderá derrotar. Nas vestes airosas e elegantes há uma nudez pronta para todas as guerras, as do espírito onde o punhal, a arma de fogo dão lugar a sabres de luz. E, no entanto, nada aqui, e nada nela, posso arriscar, é de matriz belicosa. Canora e ave sim, posso dizer que é, depois de a ouvir cantar há dias, a capella, frente ao Tejo, de aceno ao Cristo-Rei, numa noite de ternura infinita. Um cântico dos cânticos em louvor das sopranos e meias sopranos e cantoras de instrumento débil. A Visão de Deus na Mulher é a mais perfeita, disse-o o sufista Ibn-Arabi, e digo eu, budista de Inverno e nudista de Verão, que vejo na mulher a possibilidade de uma ilha de paz e fecundidade. Aqui está uma mulher madura. Quer a mulher que escreve; Quer a mulher que se passeia pelos bosques da ficção lírica; Quer a mulher que desvenda os seus segredos mais íntimos e dolorosos. Não irei dissecar mais este livro nem acrescentar palavras porque todas estarão a mais. Por isso, se me permitem, leio-a para que a escutem e guardem para sempre a sua fala.

 

(texto de apresentação livro "Vitorianas", de Marília Miranda Lopes)

 

Cicatrizes

Ontem, de pernas ao alto, numa pose iogui, dei por mim a fixar os olhos numa velha cicatriz rente ao joelho esquerdo. Logo então me ocorreu o mapa das cicatrizes e de como uma cicatriz é uma memória imediata do corpo, dos corpos, do que fomos. É como viajar num relâmpago ao instante do rasgão, tiro ou facada, como se viaja, sem que o pensamento consiga extirpar, a todos os instantes decisivos. Por exemplo, o dia 4 de Dezembro, por duas vezes me trouxe episódios memoráveis, quando dois seres carregados de cicatrizes se encontram na esperança de sararem as suas feridas de cães existenciais. A cicatriz do joelho esquerdo é coisa pouca, como são todas as do meu corpo - e dou já três carolos na madeira. Lembro o exacto instante de todas. Essa, resultou de um malho contra uma parede nos prédios amarelos da Av. do Brasil. Estatelei-me com a Tip-Top quando por instantes desviei o olhar para a menina linda que saía do prédio, o meu amor platónico de então. Nunca ela saberá que guardo a sua memória do nada que fomos na cicatriz do joelho. Nunca saberei quem foi quando mulher. O lado esquerdo é o meu lado de todos os massacres e chacinas. Um dia, o Joca, um puto de modos aciganados, resolveu cravar-me um x-acto na palma da mão esquerda, tudo porque se achou encurralado por um ajuste de contas da horda de hunos do bairro de Alvalade. A espichar sangue lá fui ao posto médico, mostrar as entranhas, onde podia ver o tendão branco do pai-de-todos numa papa vermelha e grená. Graças ao descuido do enfermeiro, só levei pontos no dia seguinte, e no lugar de uma pequena cicatriz tenho um lenho de Frankenstein. Parti uma vintena de ossos e guardo uma cicatriz mais funda na memória do choque com a cachola do Godinho, nos alvores da 4ª classe. Parte da cana do nariz ficou na tigela de esmalte do Hospital de Santa Maria, de onde recordo a viagem da anestesia, e de me doparem com uma máscara de aviador. Tenho 17 cicatrizes, de pontos e costuras mais ou menos conseguidos na obra do costureiro, a mais acarinhada de uma circuncisão tardia, que resultou num 3 em 1. Por conta de duas tesouradas inguinais, decidi que era daquela que me convertia à pequena família dos circuncidados. Um dia, à entrada no aeroporto de Israel, levava material suspeito para os policiais de serviço e não fora o arreio forçado e inexplicável das calças, e a confirmação inusitada da ausência de prepúcio, e o mais certo era ter sido detido por suspeita de tráfico de livros cabalísticos.

O sexo dos escritores

O dizer vulgar e provocador de ALA (António Lobo Antunes) sobre a menoridade artística de FP (Fernando Pessoa) enquanto “homo artisticus” pela sua suposta ausência de coitos (coitus nulus) atiçou as brasas de pessoanos, praticantes moderados, abstémios e abstinentes (que se distinguem no vício). Se Pessoa praticou ou não com Ofélia ou outras e outros e com ele próprio e os seus múltiplos, é apenas da sua conta. O efeito do absinto é perceptível, tal como a prosa destilada, torrencial, genial na inventiva e sem maus fígados. Vasco Graça Moura, a título de exemplo, um praticante a quem nos idos de juventude chamavam de o “7Up”, nunca foi pessoano idólatra nem andou perto do Orfeu, mas as suas embirrações e desassossegos guardava-os para o círculo restrito dos seus conhecidos a quem ironizava sobre o pau parabólico do poeta. Sou defensor apaixonado e convicto do poder curativo do sexo amoroso para o alívio de almas indispostas, e estou em crer que uma por dia tem o poder da ingestão de uma maçã (Golden). Uma destas, por mais ou menos inspirada, poderá dar uma página feliz, ou pelo menos uma boa gargalhada, nem que seja pelas barrigas descaídas, as varizes, os derrames, ou a polpa dos tecidos aparentada aos perus. Se FP praticou ou não praticou e desfrutou dos néctares de Afrodite além de Baco e de Cápua, e se ALA se ajeita (ou ajeitava) na cama e na cobrição como por vezes (muitas vezes) na criação dos seus escritos solipsistas e taurinos, são coisas de pouca monta que não devem ocupar o sossego dos espíritos.

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