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Dias Felizes

Dias Felizes

Ainda o Facebook

Nesta página pessoal estão 5000 amigos. Tenho outra, dita de profissional, alimentada com assuntos apenas ligados à escrita, que é o meu principal trabalho. Ponho amigos e não Amigos, em caixa alta, ou AMIGOS, em maiúsculas, para distinguir o que venho dizer. O inventor do FB, é sabido, queria fazer amigos (talvez mais amigas) e da sua mente brilhante brotou esta realidade virtual. Pessoalmente, muita coisa boa me tem permitido o FB, como retomar a disciplina de escrita diária, em jeito de crónica sobretudo, de onde, todos o saberão, nasceu o livro Quo Vadis, Salazar? Escritos do Exílio, e nascerá ainda este ano a novela A Orelha Negra. O FB também me tem criado muita perplexidade, fruto da ingenuidade de acreditar que andamos cá todos para nos darmos alegrias e ajudarmos na evolução. Os amigos são bem vindos quando vêm por bem, diz o ditado na boca e voz do poeta Zeca, um dos maiores que o canteiro conheceu, também ele atacado forte e feio pelos seus detractores, que sempre detestam quem pensa pela sua cabeça, não segue modas, nem se socorre de frases de belo efeito para construir um pensamento, quando, o mais que tem em si é sede de que a sua palavra prevaleça, mesmo que valha tanto como um peido atirado ao vento. O ofício de escritor é duro, muito duro até, mas não tão duro como o de um mineiro Kanak da Nova Caledónia, cujo único consolo é saber que a jorna da semana será justa, fruto de trabalho suado. Para que um texto, prosa, poema, haiku, ou seja o que for, até este texto que aqui vai, saia no ponto e de justa palavra e medida, é preciso empenho. Aceitei amigos e convidei amigos, para aumentar o lastro da minha escrita que só faz sentido quando lida e comentada, mesmo sendo posta de parte ou vilipendiada. Mas não aqui. É o paradoxo do FB. Aqui só devem (ou deveriam) entrar comentários de boa fé, ditos de construtivos, de justos, e não insinuações mais ou menos grotescas, baseadas em impressões a maioria arcaicas. A voz que exala das palavras quando escritas, tal como quando faladas, tem um timbre, uma tessitura, um ritmo, um cheiro, um paladar ou aquilo que se quiser ler. É essa grande liberdade de uma paleta distinta que nos faz interessantes, mesmo um sórdido e truculento Heathcliff. Todos, nas entrelinhas, temos “statements”, tendências, partidos, mesmo os partidários do nulo, como eu, que, no degrau onde estou, me considero entre um anarquista stirneriano, um budista de inverno, um nudista de verão, um simpatizante do Conhecimento e do entendimento evolutivo, que reage primariamente a todo o tipo de injustiça, seja ela social ou doméstica. Gosto de boxe, esgrima, de duelos, de debates, porque em todas estas arenas pode quadrar o golpe justo e dependemos apenas da nossa força e inteligência. Tal como abomino os golpes baixos, os abusos gratuitos de poder e todo e qualquer espécie de acto cabotino, como podem ser tantos e tão fáceis de disparar. Concluo dizendo o seguinte: o FB tem-me servido para muitas coisas, que considero positivas, a começar pela catarse da escrita. O escritor não é diferente de quem não escreve, na convivência com os seus demónios. Impor uma escrita, afirmar uma voz, manusear o instrumento, como o faz o músico virtuoso, não revela tudo de ninguém, a não ser as suas paixões. Se há algum caminho a percorrer, seja aqui, num livro, conto, crónica, carta, email ou qualquer forma de comunicação, é o caminho da aceitação da qualidade (e falta de qualidades), nossa e do outro, sabendo que as dores de cada um merecem respeito, e um comentário, a ser feito, deve ser ponderado, tal como as injustiças flagrantes, graves e notórias merecem as sentenças respectivas.

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