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Dias Felizes

Dias Felizes

Banhos de sangue (ou a vida como ela também é)

Choca-nos o horror, a morte ditada a sangue-frio, a incapacidade de perceber como eles foram capazes, como eles são e serão capazes, porque voltará a acontecer, e terá o rasto fétido de um tsunami, uma qualquer catástrofe, onde quer que seja? Eles, os tais que não sabemos quem são, e que podem estar aqui, entre nós, camuflados numa camisa branca, numa barba aparada, num cabelo limpo, num fato assertoado onde se esconde uma AK-47 em kit. Sam Harris, o escritor, filósofo e neurocientista, explica, em particular no seu ensaio The End of Faith, a mecânica cerebral destes auto-proclamados islamistas que entram num autocarro, sala de espectáculos ou estádio de futebol, onde terão mais palco, para fazer o que poderá bem ser a derradeira explicação desta sociedade doente, doente mental: criar um espectáculo. Um espectáculo de morte ao vivo aplaudido por Alá, o seu encenador, dramaturgo e demiurgo. Choca-nos hoje por ontem ter sido em Paris, mas anteontem foi em Beirute e no dia anterior em Damasco, de onde, dizem, os escorraçam, e daí o porquê de Paris, como amanhã será em Roma, Londres ou onde a imaginação os leve. A fé não é mais o móbil das cruzadas, nem será ela a levar a França de Hollande ou a NATO de Obama, a partir outra vez para a guerra. A guerra que se instala, e que nunca sarou desde o primeiro dia, é a guerra da incomunicabilidade aterradora com o Pai, o Deus, o Ser maior que habita o corpo mortal de cada um de nós. Um corpo que tanto pode amar como matar na mesma medida.  

 

De todas as leituras do dia sobre o rescaldo de Paris, a guerra, o e agora? a carta de um viúvo, um pai viúvo de mulher morta a sangue frio no Bataclan, a negar a cena do ódio, do rancor, do olho por olho, é a mais certeira do que nunca será a senda da real politik. A perda da mulher, morta por balas de identidade assassina, não logrou que fizesse da dor funda e irreparável mais do que uma possibilidade de dizer: quem mais agoniza são vocês, almas mortas, para quem o mal é a maior tentação. Não sei se saberia dizer tal coisa diante de uma perda assim, de quem mais amo. Não sei o que faria com a raiva ancestral que é parte do Homem, do meu homem também. Sei que ao ler um testemunho destes, escrito por um punho de quem estará desfeito, todas as leituras de analistas de cátedra, de politólogos sedentos de derramar a sua inteligência, foi esta a carta que tudo disse, a carta da inteligência emocional e espiritual, a que poderá conter, algum dia, os banhos de sangue.

 

O que podemos fazer?

 

 

Data de 2004, o livro importante de Sam Harris, The End of Faith. Num capítulo chave, o autor, filósofo e Phd em Neurociência, sugere que ao pensarmos no Islão, e nos riscos que representa para o Ocidente, deveríamos imaginar como seria possível, cristãos e muçulmanos viverem em paz no século XIV, os cristãos que na época tudo faziam para colocar numa pira os inimigos de Cristo, levando a incinerar desde bruxos e bruxas a paladinos de um Deus diferente do seu. Estamos na presença do passado e apesar do recurso às mais sofisticadas tecnologias de abate, é com a neurose do passado que devemos lidar. Tal como é com os erros do passado, encarados, ouvidos, desabafados, escritos... que se encaram assuntos de família, ainda que por vezes (a maioria das vezes) não mais sejam reversíveis e conduzam a outro tipo de guerras e batalhas inevitavelmente perdidas. Talvez se levem para outra vida, outro além, outro pasto em chamas, crivado de chagas, mágoas, até, talvez, se achar uma solução, um ponto de encontro e um concílio de amor. Numa questão onde o que está em causa é sociedade civil, há a considerar, acima de tudo, o que a constitui. Na melhor das hipóteses, esta terá que ser um espaço onde impere a possibilidade de criticar e ser criticado, sem que tal termine num risco de violência física ou fuzilamento literal. A ideia-chave de Harris, dita que se vivemos numa terra (e poderá contemplar o FB e os espaços virtuais) onde certas coisas não podem ser ditas sobre os líderes, os reis ou seres imaginários, sobre certos livros, porque tal pode implicar pena de morte, tortura, prisão ou perseguição, não estamos a falar de sociedade civil. A diversidade dos seres, onde se incluem as crenças (e descrenças) religiosas, constitui a sua riqueza. Toda a possibilidade humana dependerá de chegar a esse concílio, que não é um ponto de chegada, mas uma realidade volátil. Tal como um amor só resiste com regas e podas, respeito mútuo e muito, também as sociedades, famílias, países e o que quer que seja onde exista a linguagem (as linguagens) só perdura com empenho de duas partes, para se chegar a um todo comum.  

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