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Dias Felizes

Dias Felizes

Ciganos

Comia uma tarte de maçã, devagar, como pede tudo o que cai bem, quando o rapaz tisnado me abordou do outro lado da mesa.

- Posso pedir-lhe um favor? - perguntou, num português de matiz romeno.

- Disponha - disse, adivinhando a natureza fiduciária do pedido.

- Preciso de dinheiro para comprar um litro de leite e bolachas Maria. É para a minha filha mais nova. A mais velha não a vejo há dois anos. Está na Suíça - desferiu, sem delongas.

 

Tinha duas revistas “Cais” na mão. Pensei em comprar-lhe uma, sem ficar com um exemplar. Daria para o pedido. Sentou-se ao meu lado, como se precisasse de conversar com urgência.

- Você tem filhos não tem? - perguntou. - Tenho. 3. E este país não está para tê-los.

- Que é que você faz? Escrevo. Histórias. Quer ouvir uma história?

- Disponha.

 

Falou então da sua vinda para Portugal, há 6 anos, com um primo. Falou dos filhos, das dificuldades, sem azia. Falou da sua raça, cigana, nativa. Falou de "gipsy", da língua Romany (corruptela do dialecto Hindi), e das afinidades com o "Traveller", o Viajante, o nómada. Falou de cavalos, de sinas, de música e artes, tanto como de roubos, sequestros e ajustes de contas. Falou com orgulho, e desagrado das coisas que se dizem, muitas delas verdades, tristes, mas de como tudo fazia para evitar essa vida. Falei-lhe de uma comunidade cigana de Alvalade, onde aprendi a arte do regateio antes de chegar aos souks magrebinos, e das suspeitas da origem do apelido Salazar ter afinidades com uma tribo Roman emigrada no sul.

Riu, enquanto olhava para os meus apetrechos, o portátil, o cachucho de prata da caveira, os óculos Ray-Ban. Falou que ganhou muito dinheiro, quando vendia carros ("bombas"). Depois mudou de ramo e tornou-se "pedagogo”, como se diz na Grécia de quem ajuda.

- Se fosse na Índia era um guru. Aqui sou um gigolô - disse, com absoluta seriedade.

- Perguntei o que entendia por gigolô.

- Alguém que faz do amor um modo de vida, pois amores e formas de amar há muitas - disse, com sorriso de cigano e olhos oblíquos.

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