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Dias Felizes

Dias Felizes

Da Felicidade (I)

Começo por mim, pois dos outros sei apenas o que as palavras, os olhos e os corpos dizem. O que é a minha felicidade? E que vos interessa a confissão? Se vos fizer felizes neste instante de leitura, se vos mantiver atentos, terei estado de acordo com o que me trouxe aqui. Se em tudo há hierarquias, a felicidade tem por companheiras de escadaria, entre outras, a alegria, o bem-estar, o êxtase e a epifania. Felicidade é a companheira de hoje, no rescaldo de Abril, o dia da Liberdade, como o é a 27 de Abril aqui na Holanda. O que é a minha felicidade? Ver os filhos felizes antes de tudo. Felizes com a dádiva mais simples, a disponibilidade para as brincadeiras, a satisfação de um gosto simples, uma ida à piscina pública daqui a nada, uma pizza ou um hamburguer ou um temaki mais logo. O vestido da Carolina finalista de liceu. Saber que a distância nunca nos separou e que sabe da sorte do pai e contribui para a minha felicidade dizendo-me que entende se possa ou não possa estar presente, possa ou não possa contribuir para o seu momento de felicidade. O que é a minha felicidade? Saber que tenho leitores atentos, justos e de construtivos. Há quem se regozije com os desgostos dos outros como quem se entretém a fazer explosivos num laboratório (para a prática do mal). Se há o bem e o mal sem questionamento pode estar apenas nisto: que tipo de explosão quero provocar no(s) outro(s)? Escrevo quase sempre com alegria ou talvez felicidade, pois a palavra e as ideias são uma celebração. Podia usar este tempo de outras maneiras e ser feliz. Uso o meu tempo de outras maneiras e sempre conduzido por este pensamento-sentimento de que faça o que fizer é num sentido de ser e fazer feliz, a mim e a quem esteja no meu raio de acção. Não sei ao certo que tipo de emoção desperta em cada um que me lê a minha escrita que me é prazer e ofício na mesma medida. Sei de um caso ou outro, pelo que vou lendo aqui na generosidade de quem retribui com as suas palavras ou quando me junto aos meus leitores, um dos momentos mais belos neste trabalho, que é a possibilidade de partilharmos aquilo que é comum, uno e feito para ser comungado. O que é a minha felicidade? Ver o PSD derrotado nas eleições? Sim, isso far-me-à feliz, no sentido de voltar a ter esperança política de melhores dias. Somos todos animais políticos sem remédio. Há um compromisso na vida para que ela se prolongue com mais ou menos felicidade. Ver um pássaro cantar na árvore em frente à minha janela, mesmo nada sabendo de pássaros e de canto, comove-me. Isso, ou ver a minha filha crescer na sua alegria espontânea e pensar (sentir) que poderei ter uma quota-parte de responsabilidade nesse crescimento feliz. A minha infância, onde se joga muito do indivíduo, foi feliz tanto como foi dura. Mas prevaleceu a felicidade descoberta nos achados da rua. Ler um título como O Tempo dos Ciganos, ver um homem e uma mulher empoleirados num side-car, fumar o meu charuto siglo 4 na varanda (e ter uns carcanhóis para o fumar), ler Cendrars dizer que se priva de tudo, não sai e vive como um eremita quando escreve devolve à condição pacífica que poderá ser a da vida uterina ou do pó que viaja no espaço depois de ter sido matéria e corpo delito. A felicidade é estar nos braços do amor onde também se deseja e saber pelo vapor que sai dos olhos do outro que é coisa mútua e muito boa e bonita. Quantas vezes não atentamos contra a felicidade porque nos achamos traídos nos nossos instintos? Excessos de lirismo não me trazem felicidade enquanto escritor e leitor, por isso, lamento, não sigo o afamado Pedro Chagas como segui em tempos o esquecido Pedro Paixão, e digo-o sabendo que farei a infelicidade de algumas leitoras comovidas pelas delícias da prosa simples e efectiva. Para experimentar a felicidade da prosa sobre a vida, o amor e as suas torturas e auspícios dourados de uma felicidade humana e tangível terei sempre o Miller e a Clarice.

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