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Dias Felizes

Dias Felizes

Ensaio sobre o Amor I

Esta noite o amor subiu ao palco da Guilherme Coussol, em Lisboa. O amor está em toda a parte, ainda que partido, fragmentado, inventado, imaturo. O amor maior falou mais alto, e não fui ver e ouvir as conversas e divagações e deambulações sobre o tema que mais me ordena. Este ensaio nasce de uma ideia feliz da coach Teresa Pinho acarinhada por gente amorosa como a Sonja Valentina. O amor é de onde partem e se reconstroem todas as virtudes. Até chegarmos ao Amor são precisas horas, anos, vidas de ensaios e, no entanto, por paradoxo, como no paradoxo do actor, nunca haverá um ensaio geral a determinar o grande êxito da estreia, da première ou da última deixa. Apenas porque o Amor é imanente e são suas partes o desamor, o desastre e o obscuro. Comecei a aprender o que era o amor, numa colecção de cartoons humorados, com um rapaz e uma rapariga vestidos de parras e entretidos nas suas descobertas. O meu primeiro amor foi uma sueca, a quem pedi namoro, aos 6 anos, na varanda do quarto de hotel na praia de Monte Gordo. Pedir não pedi, porque a ousadia logo me fez roubar-lhe um beijo aprendido na arte de oscular almofadas em câmara lenta. Na escola primária, passava os intervalos a ensaiar a arte do linguado com a goesa Zara, e celebrávamos o ritual ocupando os 20 minutos de pausa num longo beijo sem fim, até tocar a sineta e regressarmos às carteiras em pontas. Um dia conheci a Cacilda, uma bela alentejana de 14 anos, quando era já um aluno da preparatória e me achava capaz de tudo, depois de longos serões no aprendizado da bretã Sissi que me ocupara todo um verão de tirocínio. Nos braços da Cacilda aprendi de vez a ver-me livre da sofreguidão asiática e a usar as mãos e os pés e todas as extremidades, enquanto o beijo seguia o seu caminho. Antes da bela Sofia, o amor era uma antecâmara de amassos e volúpias mal enjorcadas quase sempre terminado como se não tivesse começado. Descobri então que nada do meu pretérito audacioso era amor, mas apenas o desejo de um corpo fazer das suas. Chegou então o Amor, o primeiro, e com ele o prenúncio do amor como um tudo à vida, tolhido pela vontade de nada mais fazer a não ser passar os dias ocupado desta arte como outros o fariam com o pincel e tinta. Pintei nesses anos o amor querendo pintar o 7. Foi um amor comunista, belo nas suas missivas eufóricas e viril na certeza de tudo ser possível. Terminou como tudo termina sem que o amor findasse, dando lugar a uma bela e amorosa amizade. O que é o amor a meio de uma vida cheia de amor? O amor são os amores e nele todas as memórias dos amores vividos e vencidos. Se as memórias sombrias se apagam, é bem verdade de que de todos os meus amores, só me ocorrem rasgos de alegrias, mesmo quando tudo parecia redundar num fado de faca e alguidar. Amor, porém, não é mais do que toda a energia que nos habita e nos faz ser capazes de sempre amar, amemos muito, amemos mútuo, amemos o que amarmos.

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