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Dias Felizes

Dias Felizes

O neurónio bondoso

Estudos da neurociência descobriram a existência da constelação dos neurónios da bondade, um elenco simpático capaz de gerar uma força sanguínea de partículas pacifistas. Ainda está, contudo, por descobrir o que leva uns a procurarem a via do Ioda (como Luke Skywalker) e outros a deixarem-se cair nas malhas das forças negras, dos pântanos fétidos, dos lamaçais (como Darth Vader). Quando se fala em bondade há que não confundir com caridade ou santidade, palavras do cânone da religião, ainda que nelas habitem forças valiosas e distintas praticadas em nome da ascese do Paraíso como pode ser a subida da escada de Jacob. Bondade na linguagem da ciência é um mecanismo interno consciente que leva o indivíduo a agir num sentido profilático e isento de intenções veladas ou escondidas, como pode ser estar aqui a escrever sem que me paguem, embora deva dizer, que no fundo no fundo, o que me move neste preciso instante é o prazer da escrita como passatempo, bem como passar um tempo mais aprazível numa monótona viagem de dez horas de avião coisa que cada vez mais dispenso. Poderia ser mais bondoso acaso me oferecesse para calar os sete bebés que choram há seis horas e meia desde a despedida dos céus de Lisboa? Têm pais e mães e avós a bordo, os bebés, mas vejo-os daqui, aos pais, mães e avós, vencidos pelo cansaço, de olheiras e cabelos oleosos, de fadigas e decepções, e sei como pode ser dura a tarefa de calar um bebé molestado numa luta contra o sono ainda que de fome saciada. A bondade é uma decisão consciente, nascida da vontade do ego, mas esse ego, sozinho na sua vontade, é apenas alguém que se sacia como a criança faminta. Um lobo que depreda solitário pelos bosques da gula e do desejo, um tigre à espreita na selva a comezaina e o domínio, um bicho Homem acossado pela volúpia do aborrecimento. Esse é o Homem dominado pelos sentidos, incapaz de dizer não a uma força maior, vítima dos seus instintos, o Homem que no seu fundo de luz baça e intermitente, coisa que é própria do Homem que não se norteia, combate o tédio e a certeza da morte e das suas incógnitas, desconhecendo as alegrias desmedidas de quem Trabalha para lá do seu umbigo. Poderá ainda escolher um caminho de bondade para consigo, dando-se tudo aquilo a que acha ter direito, como a criança dominada pela birra que apenas se cala com uma chucha. Cabe então ao pai, e ao pai interno quando a alma lhe cresça, amansá-la, serená-la, à criança do seu homem-menino plasmada na viagem do Peter Pan, e dizer-lhe, à criança, ao seu ouvido onde poderá estar adormecido o neurónio da bondade, para se ocupar com outros trabalhos onde quadre a bondade pelos outros além da satisfação primária dos seus instintos. É decerto mais fácil escolher a gratificação imediata do chupa açucarado, do pau de canela, e ceder às tentações e seduções, do que resistir, sem que essa resistência traga cólera ou frustração, e chegar ao lugar da alegria funda e duradoura, às delicodoçuras de um espírito tranquilo. Aí só se chega com um longo trabalho de dedicação ao outro, ao melhor de nós, ao nosso Self. Devemos usar a palavra bondade e esperar que seja ela a por fim à dívida externa, que sejam bondosos os credores e perdoem a dívida de quem mal se governa, como nós e os gregos, os Pigs, ou haverá que ser implacável e impiedoso para que o indivíduo aprenda a lição e use dos neurónios do cérebro que lhe indiquem o caminho da luz e do bom governo dos seus passos? A bondade e a competição não coabitam e desta última só se poderá esperar, se tanto, o gesto magnânimo, o gesto do que tem apenas a vitória por meta, se este condescender e abdicar da sua vaidade reconhecendo que o caminho da bondade é o único onde a paz vitoriosa do homem que se vence a si próprio se poderá instalar com fé e esperança.

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