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Dias Felizes

Dias Felizes

Paulo Amado (um escritor)

Para falar deste livro e deste autor, deste arrojado livro e autor, recordo as palavras de um amigo, talvez vosso conhecido, o padre Mário de Oliveira: A viagem mais difícil e mais fecunda é que fazemos dentro de nós, sem nunca chegarmos a encontrar o fundo, porque somos essencialmente Mistério, Pergunta-sem-Resposta. Mas são Relatos desta Viagem que estão a fazer falta, Hoje. De contrário, acabamos todos a Comer Dinheiro!

Paulo Amado, homem que conheço desde os tempos académicos, e com quem privei de muito perto, é um homem com tanto de crente como de descrente. As suas escolhas de então já deixavam adivinhar alguém ocupado (e não digo preocupado propositadamente) com o que fazemos nós aqui, a começar por ele próprio. A escolha das Relações Internacionais e a seguir do Direito não foram um acaso, mas sim uma escolha deliberada de alguém ocupado em situar-se como homem, indivíduo, cidadão e cidadão do mundo.

A Geografia que lhe interessava e interessa, como bem revela este livro, é a dos afectos, segundo o princípio canónico de que não te podes Unir a Deus sem te Unires aos Homens. “O Que Faz Deus Quando se Sente Sozinho”, ed. Âncora, (que é uma afirmação e não uma interrogação) é um livro de muitos méritos, a começar pela forma como descreve a possibilidade humana da Criação.

Adão e Eva, protagonistas e personagens do primeiro palco do mundo, são tolos como só podem ser todos os que despertam ainda estremunhados e apenas balbuciam. São embriões de seres, a quem Deus não trata como títeres, mas como gente que irá crescer, mais cedo ou mais tarde, e afirmar-se por si, como tudo se afirma, demore o que demorar. Pensar e sentir são verbos que aparecem cedo na narrativa, como se desde os tempos primevos não fosse pedido nada mais aos humanos. Pensar e sentir, para então existir de pleno direito e com as faculdades de que sejamos capazes.

Cito: “Dar tudo de bom, com capacidade. Foi nesta construção de minúcia que achou importante a capacidade maior, querer ou não. Julgar, escolher”.

Deus criou, mas é aos homens que cabem as decisões a cada instante que passa, sem que lhes seja pedida nada mais do que a Consciência dos seus actos. Até Deus reconhece cedo que não pode tudo controlar, pois a expressão da Natureza, por vezes é mais forte do que Ele. Deus, na solidão da sua Inteligência Suprema, sabe que nada se faz sem cooperação e sem delegar - como incumbir a difícil tarefa de apresentar um livro de Inteligência Superior, como é este. Entrega aos anjos, querubins e afins o trabalho, e não apenas o de sapa, o que não lhe interessa fazer e dele colher os louros, porque afinal tudo parte Dele e a Ele tudo pode ser atribuído.

Paulo Amado é um homem abençoado por 3 dons que eu conheça: o da palavra, o da amizade e o do palato. Ou seja, este é um livro de degustação de onde nunca sairemos enfartados. Estamos perante um escritor gourmet se tal se pode dizer. Um amante dos prazeres de Cápua e das delícias de Eros e Afrodite. Salomé é o ponto alto deste livro magnífico de forte carga metafórica e simbolista, onde aparecem os ovários de Eva, a Serpente e a Imaculada ao lado do Decameron.

Os leitores que apreciam o género pícaro tanto como os domínios do esotérico sentir-se-ão saciados. Voltando a Salomé: Paulo recupera um dos grandes mitos, glória de feministas, de sado-masoquistas, da liga de amigas de Louva-a-Deus. Neta de Herodes, o Grande e filha de Herodes e Filipe e Herodia, tendo sido criada na corte do tio, Herodes Antipas.

No Novo Testamento é apontada como responsável pela execução de João Baptista. Nos relatos de S. Mateus e S. Marcos, que em muito se assemelham, descreve-se uma festa no palácio de Herodes Antipas,na qual Salomé, sobrinha e enteada do tetrarca, dança para ele. Entusiasmado com o espectáculo, Antipas (provavelmente embriagado) compromete-se a dar-lhe a recompensa que ela houver por bem pedir. É então que intervém Herodias, mãe de Salomé. Herodias odeia João Batista, o preso nas masmorras do palácio, a quem acusa de adultério por ter deixado o seu marido, Herodes Filipe, para se juntar ao irmão dele, Antipas. Herodias instrui a filha para que peça a cabeça do profeta, e ela assim o faz. Ao tetrarca, que empenhara a sua palavra, não resta outro recurso senão atender à exigência da sobrinha, ainda que isso o constranja, pois receia as consequências dessa decisão, dado o prestígio de João junto ao povo. Aliás, este é o motivo que Josefo apresenta quando trata da prisão de Baptista no texto “Antiguidades Judaicas”. É o receio de que a crescente popularidade de João no seio dos humildes, sobretudo dos camponeses, possa conduzir a uma sublevação popular, que leva o tetrarca a adoptar uma medida preventiva, mandando prender o profeta. Ao tratar da prisão de João Batista, Josefo não faz qualquer referência a Salomé ou ao banquete onde, segundo os Evangelhos, se teria decretado a sua execução.

A história de Salomé, como é contada pelos evangelistas, tem sido objecto de inspiração para vários escritores de ficção, dentre os quais, o peruano Mario Vargas Llosa, o irlandês Oscar Wilde, o lisboeta José Rodrigues Miguéis (“O Milagre Segundo Salomé”), e agora o algarvio Paulo Amado.

É imperativo que o leiam.

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