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Dias Felizes

Dias Felizes

Polisbigamia

Eu, pecador, confesso a minha pólisbigamia: entre Lisboa e Porto, nunca virá o Diabo a escolher por mim. Amo as duas (perdidamente). Às duas me quedo aos pés e às beiras dos seus maviosos rios. Às duas incenso as carnes de senhoras rústicas e chiques. Às duas teço odes de paixão eterna em letra de vate e bardo. Que flores suas mais me falam ao peito se apenas uma, de cada uma, me fosse dado escolher? Há uma curva na estrada, toda ela iluminada por luzes baixas quando a noite se abeira, feita sobre o cotovelo do rio como uma tiara. Ali se passa de carro mormente, mas para quem se apreste a caminhar, há um paredão discreto nas traseiras de onde melhor se avista a força do braço fluvial apenas perturbada no seu curso por pilares de ferro ou pedra das pontes que o encimam e afagam a vista. Em Lisboa, nada mais convém à minha alegria de filho ali nado e criado do que descer ao rio, onde este leva o nome de mar e se aquieta como as palhas e espigas num palheiro defendido das batidas do vento. Entre canaviais e o lodaçal da corrente baixa, tenho em mim todas as alegrias do mundo, alheio e distraído por momentos dos seus desvarios, com o recuo prazeroso e ingénuo ao tempo das barcaças fenícias e dos sane per aqua romanos onde hoje se acolhem as paredes cobertas de pó e fuligem do beato.

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