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Dias Felizes

Dias Felizes

Porto (ode à cidade)

A primeira vinda ao Porto deve ter sido na fase cigana, quando a família andava de furgão a vender alpergatas, no negócio do comércio por atacado. As memórias mais fundas e felizes de cirandar pelas vielas da Naçãoe são de um namoro com uma tripeira cruzada de menina da linha. Vínhamos de comboio e à medida que o Norte se instalava na paisagem, a pronúncia acentuava-se, até ganhar o travo da Fontaínhas, onde nos hospedávamos na casa do irmão, mais velho uma mão cheia de anos e pai de um rancho de filhos. Quando recordo essas vindas, e falo dos camaradas Barros, pai e filho, e das noites na casa das Fontaínhas, penso sempre num episódio dos Monthy Python passado na Irlanda de Beckett. A casa, pequena demais para a povoação doméstica, umas águas furtadas a meio de uma rua a pique que desembocava na Ribeira e no musgo verde do rio, vivia sempre animada de berreiros e palavrões e gente pobre, mas à sua maneira, feliz e desabrida. Foi lá que me iniciei no calão, bebi zurrapas, soube das diatribes entre as Antas e as Eirinhas, e aprendi a dormir de pé com umas botas cinco números acima, para me aguentar sem cair, abraçado aos seios fartos da minha tripeira. Quando agora me fizer à estrada e subir às Antas, onde um dia fui ver o Madjer e seus pares aviar os alemães, farei o tirocínio desses verdes anos, ao calcar a folhagem dourada e ouvir um galhardo carago seguido de uma ode ao morcão.

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