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Dias Felizes

Dias Felizes

Portugal: palavra de um nativo

Nada vai mudar depois deste post de tom trágico, cuja tragédia é quase nenhuma, se comparada com o que se passa nas hordas sírias, ou em boa parte do mundo dito civilizado. Como nada muda para além do que uma vontade própria e constante queira mudar num defeito de carácter que seja, e a trabalheira que dá. Post(o) isto haverá quem se irrite, implique, desdenhe, amesquinhe, celebre e até exalte com gáudio as minhas dores. Ou, por o(post)o, aplauda, comente e se reveja, com franca e justa sinceridade. Ou ainda quem não se aqueça nem arrefeça. Vamos por partes: a vontade disto escrever partiu da leitura de uma crónica recente do historiador Pacheco Pereira sobre as dores de Portugal. Assim como há os que choram e os que vendem lenços, há também os que sofrem de dores infligidas e os que se regozijam com as dores dos outros, agitando o indicador da razão, do eu bem te avisei, ao toma e aprende e embrulha, que no extremo os levará a ir cuspir no túmulo do odiado. E depois há os que juntam o pensamento ao sentimento, com sabedoria e discernimento, como faz o Pacheco na medida grande e da plaina séria. Sucintamente: o meu caso com Portugal, relatado num livro recente, é o de um nativo que tinha uma vidinha porreira, de quem ama o seu ofício triplo de escritor, viajante e omnívoro de livros, com as suas questões comezinhas de tribalismo caseiro, sem crimes de sangue. De repente, não mais do que de repente, vem uma entidade de plenipoderes e diz à sua cara-metade num calabouço sombrio: “V. Exa não pagou tudo o que devia ter pago neste ano e neste e neste e mais neste e neste”, embora, a cara metade tenha recorrido a pessoa idónea, e pago o que esse alguém conhecedor da matéria fiscal lhe tenha dito ser o devido. A aritmética a provar fica por conta deste lado. Do outro lado, da entidade plenipoderosa, ficam os métodos indiciários (e torcionários), próprios de quem faz um trabalho preguiçoso, danoso, cabotino, e em nada distinto de tempos atávicos em que se atiravam homens e mulheres para forcas, fogueiras e masmorras onde apodreciam até ao derradeiro suspiro. Por conta desta actuação, que equivale a entregar-se a alguém um voto de confiança ou abrir a porta de casa e ser-se saqueado, passa uma família de vidinha de paga casa, carrito e instrução e alimento de petizes, a viver em prol do pagamento de uma longa e penosa dívida, que se provou como foi possível provar, de flagrante e injusta e grave monta, sem que nada disso tenha sido considerado. Olhando a conta final é como ter um empregado chamado Estado/Fisco por conta, a ganhar um salário elevado e de emprego garantido durante 11 anos. Isso ou entregar tudo, de mão beijada, o que se conquistou a trabalhar, fruto de trabalho honesto e honrado. Desde há três anos, cada dia que passa passou a ser encarado como uma espécie de cancro induzido que se combate com quimioterapias narrativas. Se o digo aqui, publicamente, em lençóis de texto, ao que me é dado viver, é por acreditar com ingenuidade sentimental que há por aí réstias de humanidade, de humanismo, e de gente disposta a combater as injustiças do(s) sistema(s), tanto como é merecedor de luta e debate todo e qualquer assunto onde os factos sejam inquestionáveis para se dizer com palavras exactas se estamos diante de um caso de abuso, traição ou de pura canalhice. A solução ou soluções para acabar com os soluços? Para uns será pela via democrática, esperançosos de que os vindouros venham e resolvam e limpem as cagadas quando essa limpeza começa na própria casa e se a eles não se juntarem em jornadas de luta e asseios, tudo ficará na mesma. Para outros será através do humor, que tem gradações como qualquer arte, desde o sarcasmo ao cáustico, do satírico à caricatura, ao irónico e subtil ou escacha-pessegueiro. Para outros ainda, resolvem-se as partes desavindas à cabeçada, ao soco, ao tiro, ao obus e à limpeza de tudo e todo o que seja diferente, como as vespas, que exterminam sem contemplações piedosas. Para outros, onde mais me revejo, procura-se a solução (que depois do caldo entornado será para sempre precária, mesmo nas almas budistas) através de palavras escolhidas a dedo para caracterizar os factos e se preciso for, escarafunchar no próprio ser e nas suas falhas. Posto isto: vou voltar à labuta no romance e preparar as aulas da semana, dando graças pela minha condição de saudável exilado, no lugar de refugiado ou preso domiciliário.

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